
A Justiça Federal do Amazonas determinou, nesta quarta-feira, que o governo utilize helicópteros, embarcações e equipes para auxiliar nas buscas do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, desaparecidos desde o último domingo no Vale do Javari, na região amazônica.
De acordo com a decisão, assinada pela juíza Jaiza Maria Pinto Fraxe, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União estão autorizados a requisitar diretamente das instituições (Polícia Federal, Comando Militar da Amazônia e Força Nacional de Segurança) as providências urgentes e necessárias ao cumprimento da ação.
Na decisão, a juíza aponta que, caso não houvesse omissão, seria provável que os cidadãos já tivessem sido localizados, ainda que mortos. Phillips e Araújo, que também é servidor da Funai, estão desaparecidos desde o último domingo em Vale do Javari, no Amazonas. Como o R7 mostrou, a região, segunda maior terra indígena do país, é pressionada por pesca ilegal, garimpo, tráfico e extração de madeira e é palco de conflitos com pescadores e garimpeiros.
Araújo era alvo de ameaças constantes por parte de garimpeiros e madeireiros na região. De acordo com a Univaja (União das Organizações Indígenas do Vale do Javari), o indigenista foi intimidado dias antes da viagem na companhia do jornalista do renomado jornal britânico The Guardian.
O Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, fica próximo à fronteira com o Peru e abriga ao menos 14 grupos isolados — a maior população indígena não contatada do mundo. A região é pressionada por invasores ligados à pesca e à caça ilegal, ao garimpo e à extração de madeira.
O Ministério da Defesa informou que 150 militares atuam nas buscas pelo jornalista inglês e pelo servidor da Funai desaparecidos na Amazônia. Segundo a pasta, a equipe designada é composta de “especialistas em operações em ambiente de selva, que conhecem o terreno onde se desenvolvem as buscas”.
Anteriormente, a Polícia Federal havia enviado ao Amazonas uma aeronave com funcionários da corporação e integrantes do Exército. A operação ocorreu nesta terça-feira com o auxílio também de um helicóptero, duas embarcações e uma moto aquática da Marinha, além de sete militares atuando com a utilização de uma lancha.
Bruno Araújo e Dom Phillips saíram de Atalaia do Norte para visitar a equipe de vigilância indígena do Lago do Jaburu na última sexta-feira. Eles deveriam ter voltado para o município na manhã de domingo. Segundo a Funai, Araújo não estava em “missão institucional”. Embora ainda integre o quadro da fundação, ele estava de “licença para tratar de interesses particulares”, diz o órgão.
Os dois viajavam em uma embarcação nova, com 70 litros de gasolina — o suficiente para o percurso — e sete tambores vazios de combustível. Por volta das 6h do domingo, eles chegaram à comunidade São Rafael, onde encontrariam uma liderança local. Sem conseguirem falar com o morador, decidiram voltar para Atalaia do Norte, viagem com duração de cerca de duas horas, mas não chegaram à cidade.
“Às 14h, saiu de Atalaia do Norte uma primeira equipe de busca da Univaja, formada por indígenas extremamente conhecedores da região. A equipe cobriu o mesmo trecho que Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips supostamente teriam percorrido, mas nenhum vestígio foi encontrado”, informa o comunicado da Univaja.
Araújo é indigenista especializado em povos indígenas isolados e conhecedor da região, onde foi coordenador regional por cinco anos. Phillips mora em Salvador, na Bahia, e faz reportagens sobre o Brasil há 15 anos para o New York Times e o Washington Post, bem como para o Guardian. O jornal The Guardian afirmou que a embaixada britânica no Brasil também acompanha o caso.