
Não há nada mais pedagógico do que o exemplo". A frase, proferida pelo economista Carlos Lessa, evento em homenagem a José "Pepe" Mujica, explicava bem a camoção em torno da visita do senador e ex-presidente do Uruguai ao Brasil. Mas o senhor grisalho que governou o país vizinho entre 2010 e março de 2015 e se destacou pelo despojamento na vida pessoal, ignorou a pompa reservada às grandes autoridades e optou por falar sobre simplicidade. "A politica se tornou ferramenta para a riqueza o político tem que viver como a maioria e não como uma minoria privilegiada", disse o uruguaio ao receber, na manhã de 27 de agosto, o prêmio Personalidade Sur 2015 na Federação de Câmaras de Comércio e Industria da América do Sul (Federasur), no Centro do Rio de Janeiro. Mais tarde, "Don Pepe", como é carinhosamente chamado no Uruguai, foi ovacionado por cerca de cinco mil jovens que lotaram o anfiteatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Não sem antes provar feijoada e rabada brasileiras em um botequim muito simples próximo a universidade.
Grande parte da sua fama no Brasil se deve justamente à vida sem ostentação. Enquanto foipresidente, Mujica recebia 12.500 dólares mensais, e doava 90% de seu salário. Continuou morando em tuma pequena fazenda nos arredores de Montevidéu ce digia um Fusca modelo 1978: O ex-presidente ajudou a tornar também o Uruguai um dos paises a legislação mais avançada em relação as drogas e a legalização do aborto. "Não poderia haver pessoa mais representativa do que ele para receber essa premiação, disse Williams Gonçalves, diretor da Federasur e professor de Relações Internacionais da Uerj. O encontro com os jovens naquela mesma noite foi iniciativa do próprio ex-presidente. "Não há homens grandes, ha grandes eausas. Não há homens imprescindiveis, há causas imprescindiveis", afirmou Mujica, em um convite à modestia. "Não mudamos a realidade fazendo comentários, sentados em um café, mas trabalhando como gotas d'água ao longo dos anos, com método, com fé, com disciplina", disse a atual senador,.de 79 anos, 14 deles passados na prisão em seu pais, por ter participado do combate à ditadura uruguaia. Muijca só saiu da cadeia em 1985, com a volta da democracia.
Cercado por dezenas de jornalistas ao final do evento que o homenageou, Mujica declarou que "a prisão por si só não resolve nada", ao ser questionado sobre a proposta de redução da maioridade penal no Brasil. "Não creio que esse caminho ajude. Com a reduçãol, o que temos a oferecer a esses jovens é uma realidade muito pior. As cadeias se tornaram universidades do delito. O carcere não ajuda a superar deficiências, e sim as multiplica, pelo menos na América Latina", disse. Nos dois discursos que proferiu durante a visita -um, na Câmara de Comércio; outro, na universidade tom era de critica ao consumismo e de resgate da ética na politica. "Melhor ser feliz e não ser desenvolvido. E preciso ter tempo para viver. Isso se chama liberdade. Tempo para o que gostamos e não só para obrigações. Não é uma apologia da pobreza e da miséria: É a necessidade de ter tempo livre para es relações humanas. Porque precisamos delas".
Para ele, não só a ética, mas o sonho e a utopia devem ser resgatados. "Hoje sabemos que se não mudamos o mento, não mudamos nada. Para a realidade mudar, temos que mudar a nós mesmos", defendeu, aconselhando os jovens a não tomarem-a "mamadeira do capitalismo".
Mujica criticou a "loucura do consumismo", que estimula as postas a trocar de carro a cada dois anos, ou de celular a cada três meses. "Isso é felicidade? Pagar contas e mais contas, sem tempo sequer de dar um beijo em seus filhos? O individualismo é uma enfermidade. A ferramenta que temos para isso é a política", enfatizou.
Sobre a integração na América Latina, o senador disse que é importante que os paises "se juntem por socorro" e reafirmou que é possível encontrar soluções próprias.
"Temos que copiar, a ciência e a tecnologia (dos países desenvolvidos), mas não os valores. Podemos formar uma civilização distinta".
ANTICONSUMISMO E LIBERDADE
Em tempos de mídias sociais, os posts mostrando
Mujica à frente da multidão naquela noite comprovam a força de um ícone "Ele representa o sonho da integridade, da coerência e da liberdade", disse à Radis a professora Márcia Guerra, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), na arquibancada do anfiteatro da Uerj. "É um dos poucos politicos honestos.
Gostaria de ouvi-lo falar de redução da maioridade penal do feminismo e de tudo que a gente apoia", opinou Eduarda Costa, de 20 anos, estudante de Artes Visuais na universidade. Antes de sua chegada ao palco onde discursaria, o clima era de euforia, com palavras de ordem contra a redução da maioridade penal, pela legalização do consumo de drogas e pelos direitos das mulheres. No entanto, quando Dom Pepe começou a falar, a multidão de jovens, em silêncio, escutava suas palavras pronunciadas pausadamente em espanhol. Em grupo, era possivel assistir a colégas sentados próximos que se ajudavam na compreensão do idioma. Em seu tom ameno de voz, Mujica evocou lembranças de tantos estudantes que foram ficando pelo caminho, na América Latina" e enfatizou a defesa da qualidade de vida e da solidariedade como valores superiores ao trabalho capitalista. E propôs à juventude um desafio: "Se o mercado vai decidir os rumos de vocês ou vocês mesmos vão decidir seus rumos, só depende de vocês. A liberdade não se vende. A liberdade se ganha fazendo algo pelos demais isso se chama solidariedade.
Sem solidariedade não há civilização". O uruguaio reforçou seu apelo por outros valores. "Se o que buscas é dinheiro, não te metas na política", de tarou ele, quase respondendo aos anseios da profes da estudante ouvidas pela Radis. As declarações sobre a política de legalização de drogas ressaltam a violência gerada pela clandestinidade, comparada pelo ex-presidente à Lei Seca norteamericana, no início do século 20. A criminalidade do consumo e o comércio ilegal prejudicam a recuperação de dependentes. Mas a droga em si é uma desgraça, disse ele.
O ex-presidente coacerentes perguntas formuladas previamente por escrito pelo publico e selecionadas pelos organizadores do evento na Universidade. A pergunta sobre quais seriam os idolos e livros que o influenciaram, Mujica respondeu apenas que "a vida é um livro aberto", mas citou Dom Quixote, o cavaleiro andante de Miguel de Cervantes que continua sendo um símbolo da prosaica e necessária busca por utopias. Sobre a crise de representatividade politica no mundo, declarou: "O problema não são os presidentes, o problema é toda a corte", momento em que a plateia o aplaudiu sob gritos de "Fora Cunha" e "Não vai ter golpe"
Apesar de ter avisado antecipadamente que não comentaria sobre a situação política do Brasil, Mujica repudiou toda e qualquer ideia sobre golpista: "Tenho que ser claro: aventura com uniformes militares? Por favor! Golpe de estado? Por favor Esse filme já vimos muitas vezes na América Latina e não pode acontecer de novo. A democracia não é perfeita porque não somos perfeitos. Temos que defender a democracia para melhora, não para sepultá-la".