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Fabrício Carpinejar: UM ANJO DE ÓCULOS AZUIS

Em publicação em suas redes socoais o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar lamentou a morte do menino Rafael Mateus Winques.

26/05/2020 11h33 Atualizada há 2 meses
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Por: Redação Acontece no RS
Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

A Polícia Civil confirmou no início da noite desta segunda-feira, que foi localizado o corpo do menino Rafael Mateus Winques, de 11 anos, que estava desaparecido desde o dia 15 deste mês. Segundo a Polícia, a mãe Alexandra Dougokenski, confirmou que matou o filho. O corpo estava enrolado em um lençol, dentro de uma caixa, em uma casa abandonada, nas proximidades de onde o menino residia.

À Polícia, a mãe disse que a morte teria sido ocasionada por medicação, mas a versão está sendo apurada pelos policiais. O clima é de revolta na cidade de Planalto, com 10,5 mil habitantes, no Norte do Estado. Dezenas de pessoas se deslocaram até a região onde o corpo foi localizado.

Em publicação em suas redes socoais o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar lamentou a morte de Rafael:

UM ANJO DE ÓCULOS AZUIS

Fabrício Carpinejar

Mais uma criança acabou assassinada no Rio Grande do Sul pela própria família.

Mãe confessou ter matado o seu filho Rafael Mateus Winques, 11 anos, em Planalto (RS), a 120 km de Passo Fundo, a duas horas do calvário de Bernardo Boldrini, também de 11 anos, também morto por supermedicação, também de forma vil, também por quem o deveria o proteger.

A mínima diferença é que encontraram o corpinho dentro de uma caixa, envolvido em lençóis, numa casa abandonada, não em uma cova às margens de um rio.

Mas a tragédia igualmente teve toda a dissimulação de desaparecimento, com expedição por dez dias, como no caso de Bernardo, com a versão de que a mãe teria acordado de manhã e o filho não estava mais em casa, que a porta da frente estava aberta, com a chave pelo lado de dentro.

A farsa, o choro fingido, o comparecimento na Polícia, os cartazes espalhadas pelos postes sempre antecedem a barbárie.

Como alguém mata o filho e ainda consegue disfarçar com indiferença e frieza por semanas a fio, sendo consolada por amigos e familiares, absolutamente incapazes de perceber que confortavam a assassina.

É novamente um rosto de um anjo a ser fixado prematuramente na lápide. Com uma diferença tão pequena entre a data de nascimento e a do fim que ficamos com raiva de Deus. Ele teve o direito de viver apenas um breve suspiro.

Leio, releio, vou para frente dos fatos, volto atrás para encontrar qual o motivo para tal crueldade assustadora cometida por uma moradora pacata do interior, numa residência comum, parecida a tantas outras. Caço um sentido para justificar um ato impensável contra um menino frágil e indefeso, de óculos de aros azuis e olhos doces.

E não acho nada. Absolutamente nada. Monstruosamente nada.

Ele morreu sem saber que estava morrendo. Recebeu remédios como se estivesse com dor de cabeça, talvez perguntando o que eram antes de engolir e tendo uma mentira de resposta.

Morreu por ser somente criança. Por sentir fome, amor, lealdade. Por buscar carinho, colo, atenção, deitar no ombro. Morreu por ter cansado de brincar com os jogos de seu celular e procurar conversar. Morreu por falar, por existir, por estar perto, por ter vontades e pensamentos, por estar dividindo a sala com uma mãe sem coração e que logo perderia o seu ventre ao calar a infância de seu rebento para sempre.

Crianças são assassinadas por serem crianças. Banalmente, torpemente, simplesmente porque não são desejadas.

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