
As doações enviadas dos Estados Unidos para ajudar famílias atingidas pelas enchentes de 2024 no Estado acabaram no centro de uma investigação que resultou na responsabilização criminal de seis investigados. O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), apresentou nesta quarta-feira, 4 de novembro, ao Poder Judiciário denúncia por três crimes: organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. Os tipos penais estão distribuídos em oito fatos delituosos relacionados ao desvio e à comercialização de donativos destinados às vítimas da tragédia climática. A denúncia foi apresentada pelo promotor de Justiça Manoel Figueiredo Antunes, coordenador do 5º Núcleo Regional do GAECO – Serra.
A investigação teve início após informações encaminhadas ao Consulado-Geral do Brasil em Miami apontarem que roupas arrecadadas para auxiliar atingidos pelas enchentes estavam sendo vendidas na Serra Gaúcha. Conforme a apuração, roupas, utensílios, eletrodomésticos, medicamentos e outros produtos enviados dos Estados Unidos e de diferentes regiões do Brasil chegaram ao Rio Grande do Sul para serem distribuídos à população afetada, mas parte do material foi desviada para comercialização em brechós e para proveito particular. O trabalho também identificou o uso de contas bancárias de terceiros, ocultação patrimonial e movimentações financeiras destinadas a dissimular a origem dos recursos obtidos com as vendas.
Deflagrada em dezembro de 2025, a Operação Ascaris reuniu elementos que apontam para a atuação de um grupo com divisão de tarefas voltada ao desvio, armazenamento e comercialização de donativos destinados às vítimas das enchentes, bem como à ocultação dos valores obtidos com as vendas. Durante as diligências realizadas na Serra Gaúcha, foram cumpridas medidas judiciais, coletadas provas e apreendidos documentos, além da localização de dezenas de caixas de roupas, fraldas, calçados, medicamentos, mamadeiras, eletrodomésticos e produtos de higiene que deveriam ter sido entregues às famílias atingidas pela calamidade.
A investigação também apurou o desvio de mercadorias doadas por empresas, de vouchers de combustível destinados às ações de assistência e a utilização de contas bancárias e bens em nome de terceiros para ocultar patrimônio. Após autorização judicial e o avanço das investigações, os materiais recuperados foram repassados a entidades assistenciais, creches e abrigos de municípios como Caxias do Sul, São Marcos e Boa Vista do Sul. Além disso, veículos e imóveis foram sequestrados e contas bancárias bloqueadas para buscar o ressarcimento dos prejuízos causados pelo desvio das doações.