
A história das comunidades do interior, as lembranças transmitidas entre gerações e as lendas que fazem parte do imaginário regional foram temas de uma entrevista especial do Acontece no RS com César Augusto Pierezan e Rosane de Fátima Sonda Pierezan.
Durante a conversa, os dois apresentaram detalhes da construção de “Pratinha no Coração – Raízes e Memórias”, obra dedicada à preservação da história da comunidade da Pratinha, no interior de Espumoso, e também falaram sobre “O Minhocão do Jacuí e os Lagos Encantados”, livro de César que une literatura fantástica, folclore e elementos históricos ligados ao Rio Jacuí e à região.
A ideia de registrar a trajetória da comunidade começou a partir do desejo de Nadir Salette Fontana, também autora da obra e que mantém forte ligação com a Pratinha.
Segundo César, o projeto ganhou forma a partir de um caderno de anotações e do entendimento de que muitas histórias precisavam ser preservadas antes que se perdessem.
O trabalho levou aproximadamente dois anos de pesquisa, envolvendo entrevistas, fotografias, documentos e contribuições de pessoas que viveram na comunidade ou de seus descendentes.
Rosane destacou que o livro não foi construído apenas pelos autores, mas a partir de muitas memórias compartilhadas.
A proposta foi registrar não somente nomes ou famílias isoladamente, mas principalmente a maneira como as pessoas conviviam e construíam coletivamente a comunidade.
Religiosidade, educação, agricultura, atividades econômicas, futebol, festas, brincadeiras, costumes e relações entre os moradores estão entre os temas recuperados pela obra.
Durante a entrevista, César e Rosane lembraram que a Pratinha chegou a reunir centenas de moradores e possuía uma dinâmica econômica própria.
A localidade contou com ferreiro, pequenos estabelecimentos, alambiques, atafonas e outras atividades que permitiam às famílias atender muitas das necessidades dentro da própria comunidade.
Outro aspecto destacado foi a capacidade de mobilização dos moradores.
Pontes, espaços comunitários, atividades religiosas e outras iniciativas dependiam diretamente da organização das famílias.
Para os entrevistados, esse ambiente também favoreceu o surgimento de lideranças e fortaleceu princípios de cooperação que posteriormente apareceriam em diferentes iniciativas da região.
O livro recupera ainda registros relacionados ao cooperativismo, à história da Igreja de São Roque e ao futebol, incluindo fotografias e documentos do tradicional Ouro e Prata.
A receptividade ao livro surpreendeu os autores.
Durante a festa realizada na própria comunidade da Pratinha, César relatou que 106 exemplares foram autografados em poucas horas.
Mais importante que os números, porém, foi o reencontro proporcionado pela publicação.
Antigos moradores, filhos, netos e descendentes passaram a identificar fotografias, familiares e acontecimentos registrados na obra. Depois do lançamento, novas histórias também começaram a chegar aos autores.
Segundo Rosane e César, já existe material suficiente para acrescentar dezenas de páginas ao trabalho, embora uma eventual segunda edição ainda não esteja confirmada.
O sentimento de pertencimento acabou se tornando uma das principais marcas da obra.
Mesmo pessoas que deixaram a Pratinha há décadas continuam mantendo uma ligação afetiva com a comunidade.
Um dos capítulos abordados na entrevista trata da migração de famílias da região para Luís Eduardo Magalhães, na Bahia.
Os autores relembraram as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros que deixaram o Rio Grande do Sul em busca de novas oportunidades, em uma época sem celulares, internet ou as facilidades de comunicação existentes atualmente.
Histórias de longas viagens, acampamentos e da abertura de novas áreas agrícolas ajudam a demonstrar os desafios enfrentados pelas famílias que deixaram a Pratinha.
Décadas mais tarde, parte desses descendentes mantém viva a relação com a comunidade de origem.
César e Rosane também estiveram recentemente em Luís Eduardo Magalhães para apresentar o livro, em um encontro marcado pela emoção de pessoas que reconheceram no trabalho parte da própria história familiar.
Na entrevista ao Acontece no RS, César Augusto Pierezan e Rosane de Fátima Sonda Pierezan detalham o processo de pesquisa, contam histórias da comunidade e refletem sobre a importância de preservar a memória das famílias e das localidades do interior.
A conversa também seguiu para outro universo da produção literária de César Augusto Pierezan.
Em “O Minhocão do Jacuí e os Lagos Encantados”, o escritor trabalha com elementos do folclore regional e histórias transmitidas ao longo das gerações sobre uma misteriosa criatura que habitaria as águas do Rio Jacuí.
César explicou que seu interesse pelas histórias do rio surgiu ainda a partir de relatos populares e de pesquisas sobre lendas existentes na região.
O livro mistura ficção, imaginário popular e referências a acontecimentos e personagens históricos.
Entre os elementos utilizados na narrativa estão histórias relacionadas ao Rio Jacuí, aos jesuítas, a supostos tesouros e aos Monges Barbudos, movimento histórico registrado em municípios da região.
Na construção literária, o autor utiliza esses elementos como inspiração para criar personagens e situações fantásticas, deixando clara a diferença entre acontecimentos históricos documentados e o universo ficcional da obra.
Além da aventura e do folclore, César explicou que a criatura pode ser interpretada como uma representação dos problemas enfrentados pelo próprio rio.
Assoreamento, desmatamento e descarte inadequado de resíduos aparecem entre as reflexões provocadas pela história.
A proposta é utilizar o imaginário para despertar principalmente nos leitores mais jovens a curiosidade pela cultura regional e, ao mesmo tempo, estimular uma relação de respeito com a natureza.
O escritor também recordou relatos de pais que precisaram ler repetidas vezes versões anteriores da história para os filhos, algo que considera uma das maiores recompensas proporcionadas pela literatura.
Ao longo da entrevista, César e Rosane defenderam a leitura e o registro das histórias familiares como formas de compreender melhor o presente.
Para o casal, ouvir pais, avós e moradores mais antigos permite conhecer dificuldades, escolhas e experiências que ajudam a explicar a trajetória das famílias e das próprias comunidades.
Esse é também o ponto de encontro entre as duas obras apresentadas na entrevista.
Enquanto “Pratinha no Coração – Raízes e Memórias” trabalha diretamente com relatos, documentos e lembranças de uma comunidade real, “O Minhocão do Jacuí e os Lagos Encantados” utiliza o folclore e a ficção para manter vivas narrativas relacionadas à cultura regional.
Ao final da conversa, César resumiu o propósito de seu trabalho como uma tentativa de transformar histórias, costumes e ideias em literatura regional, aproximando novos leitores da história do seu próprio povo.
Rosane também destacou a importância de valorizar iniciativas de pessoas da região que buscam fazer trabalhos diferentes e preservar a identidade do lugar onde vivem.
A obra de César Augusto Pierezan pode ser encontrada em diferentes plataformas:
Amazon:
https://www.amazon.com.br/Minhoc%C3%A3o-Jacu%C3%AD-Lagos-Encantados/dp/6528037787
Kobo:
https://www.kobo.com/br/en/ebook/o-minhocao-do-jacui-e-os-lagos-encantados
Casa del Libro:
https://www.casadellibro.com/ebook-o-minhoco-do-jacui-e-os-lagos-encantados-ebook/9786528037797/17940922
Entrevista: Acontece no RS