
Os adversários acham que é estratégia, mas, na verdade, é traço de personalidade. Nos embates da atual corrida para o Palácio Piratini, o vice-governador Gabriel Souza, que concorre ao cargo de governador do RS pelo MDB, apresenta dados sem recorrer a anotações, faz conexões entre ações de áreas distintas e coloca em xeque o conhecimento dos oponentes.
A curiosidade sobre tudo e a vontade de sempre esmiuçar os assuntos não é uma realidade apenas no jogo político, para o qual Gabriel despertou cedo. Aos 13 anos, ao mesmo tempo em que começava a trabalhar como office-boy no escritório de contabilidade do pai em Tramandaí e estudava no Colégio Cenecista, em Osório, se interessou pelo movimento estudantil. Tinha início seu caminho na política.
Fora dela, mostra a mesma característica. Afinal, quantos médicos veterinários, ao seguirem com a trajetória acadêmica, fazem mestrado em Direito Empresarial e Cidadania e engatam um doutorado em curso, com dupla titulação, no Brasil e em Portugal, em Administração Pública?
“Sempre quis ser veterinário, gosto. Mas, por causa da política, muita gente acha que só me formei. Não sabe que abri negócio, tive consultório e mantive enquanto consegui conciliar. Na gestão pública, quando dizem que não dá para fazer, quero saber o motivo e quem não deixa. Gosto de destrinchar números, sei que, em uma campanha, às vezes nem é o mais recomendado, porque são abstratos, mas sei também, e aí já filosofando um pouco, que o ser humano pode aprender sobre todas as coisas”, diz Gabriel, com um sorriso tímido.
A timidez, admite, o acompanha, apesar dos anos de discursos e eventos públicos. “Sou como meu pai. A mãe é que é extrovertida”, revela, já na chegada para a entrevista na Redenção. É frio e, apesar do sol, o ventinho gelado afasta o público do parque. Mas não incomoda Gabriel, que traz para o encontro também a cadela da família, Bibiana Terra. Ela foi adotada recentemente, após um período de luto pela morte da cadela Anita Garibaldi, companheira de Gabriel e da esposa, Talise, por 13 anos.
Sim, as homenagens à personagem de “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo, e à revolucionária brasileira que se destacou na Revolução Farroupilha também dizem muito sobre a personalidade do dono. Ele é um leitor dedicado de livros de papel, sejam eles romances, biografias ou tratados sobre a teoria do Estado. E tem admiração particular pela história política do RS. No momento, lê biografia de Júlio de Castilhos, escrita por Sérgio da Costa Franco.
De volta ao clima na Redenção, o emedebista compara: “Vento mesmo era aquele Nordestão que eu pegava de frente na bicicleta quando trabalhava para o pai e ia entregar boleto para clientes nas outras praias. E na volta então, nem pedalava né, o vento é que me levava”.
A escolha do parque acabou revelando facetas pouco conhecidas do emedebista. Ele, que se transferiu para a Capital pela primeira vez aos 19 anos, e que em vários períodos se dividiu entre Porto Alegre e Tramandaí, tem a Redenção hoje na rotina, porque mora pertinho, na rua Santana. É ali que leva a filha Dora, 9 anos, para brincar, quando está na cidade. Mas a predileção pelo parque é antiga. Quando ele e Talise decidiram morar juntos, optaram por um apartamento na Cidade Baixa, também para ficar perto da Redenção.
Anita Garibaldi, Redenção, Cidade Baixa. Impossível perder a deixa e perguntar para Gabriel, de brincadeira, se ele é um “esquerdista disfarçado”, o que rende boas gargalhadas e vários outros exemplos. O vice-governador lembra de sua militância na JR-8, a Juventude Revolucionária 8 de Outubro, braço do MR-8, de orientação marxista, e que se abrigou no MDB durante a ditadura. Cita o filósofo Antonio Gramsci para se referir ao momento de transformação da sociedade contemporânea e teoriza sobre o avanço da extrema-direita no mundo.
“Acho que todo o papo de 2013, as revoltas, o crescimento do populismo e da extrema-direita, tudo decorre da desatualização do Estado perante a sociedade. Há um cansaço das pessoas com o capitalismo, que não entregou o que prometia. Por isso que esse negócio de antissistema pega fácil. Eu me considero um liberal pleno. Não esse liberal brasileiro desvirtuado, bolsonarista. Sou mesmo bem de centro. Bah, a gente poderia ficar o dia inteiro conversando sobre isso”, conclui Gabriel.
Nascido em Tramandaí em 1984, em uma família que “não gostava de política”, Gabriel, aos 15, já era vice-presidente da União Gaúcha dos Estudantes e se filiou ao então PMDB. Aos 19, começou a trabalhar com o então deputado federal Eliseu Padilha, que viria a se tornar seu mentor, e a percorrer o Estado. Em 2005 foi eleito presidente estadual da juventude do partido. E, durante uma reunião na cidade de Independência, conheceu Talise. Cinco anos depois, virou presidente nacional da juventude e tentou o primeiro mandato para a Assembleia Legislativa, sem sucesso. Em 2012, quando o PMDB ganhou a prefeitura em Tramandaí, foi ser secretário na administração municipal.
Em 2014, com consultório montado e os negócios prosperando, estava determinado a permanecer na política local quando começaram consultas para que voltasse a concorrer a deputado. A esposa o incentivou. “A Talise disse que eu nunca ia ser feliz se ficasse com aquela dúvida, de não saber se me elegia. Ela estava certa. Eu me elegi e daí o resto tu sabes. O Sartori me escolheu líder do governo, eu concorri de novo em 2018, fui o mais votado da bancada, presidi a Assembleia, e aí veio aquela guerra interna pesadíssima em 2022, que eu considero superada”, relembra Gabriel, sobre os embates dentro do MDB e sua indicação para vice na chapa de Eduardo Leite.
Desde então, ele se prepara para concorrer ao governo. A agenda dupla é pesada, mas ele assegura que a cumpre com satisfação. Com ou sem campanha, acorda cedo, às 5h. Faz um chimarrão e lê, “porque ninguém atende ligação ou responde Whats a essa hora”, e vai para a academia assim que ela abre. A rotina de treinos, mantém desde 2020. “Ajuda demais, em tudo, e faço por gosto, como um lazer”, assegura.
Sempre que pode, vai com a família para Tramandaí, que continua sendo seu refúgio. “É o meu lugar”, resume. Na casa em um condomínio na entrada da cidade, mantém uma pequena biblioteca. Onde se tranca quando precisa estudar ou “apertam” as atividades do doutorado. Se os roteiros passam perto de Independência, Talise e Dora acompanham.
Ao final do encontro, com a mesma calma com que cruza a área do espelho d’água, na Redenção, falando sem pressa, Gabriel fala como é estar no mesmo casamento desde os 21 anos e se manter no mesmo partido há mais de 30, apesar da efervescência que marca a política brasileira. Com outro sorriso tímido, responde: “Sou capricorniano, né?”.