Sábado, 05 de Setembro de 2026

Juliana Brizola: Autenticidade e franqueza de quem crê nas articulações

Neta de Leonel Brizola, candidata do PDT entra na briga pelo que acredita e preza pelas conversas entre partidos.

Por: Redação Acontece no RS Fonte: Correio do Povo
05/09/2026 às 18h28
Juliana Brizola: Autenticidade e franqueza de quem crê nas articulações
Juliana descreve as dificuldades e o aprendizado que teve ao conciliar a maternidade com a política Foto : Mauro Schaefer

Não são necessários mais de 10 minutos de papo para perceber que Juliana Brizola herdou uma das características marcantes do avô, Leonel: a autenticidade. Com espontaneidade, a candidata do PDT ao governo do RS fala da rotina, dos filhos, da família, dos relacionamentos e das crenças durante a entrevista que escolheu dar ao Correio do Povo na sede do PDT, no bairro Floresta, em uma tarde ensolarada de agosto. “Minha casa hoje não dá, tá uma bagunça, e aqui é mesmo para mim uma segunda casa”, assegura, entre fotos de Brizola, João Goulart e Getúlio Vargas.

A política se atravessa o tempo todo, não tem como ser diferente. Mas, enquanto fala dela, a candidata se mostra uma exímia conversadora das coisas da vida. Os filhos, sempre que dá, leva junto nos roteiros pelo Estado. Após dois casamentos, engatou um namoro à distância, com um pedetista radicado em São Paulo. Faz anotações e escreve textos, mesmo que sejam longos, de forma manuscrita, ao invés de usar o computador.

“Sou leonina né? Com ascendente em áries e lua em gêmeos.” Como suas duas avós, é devota de Santo Antônio. Mas ao santo, recorre mais para tratar das coisas do coração. Antes dos debates, faz respiração e recita mantras budistas aprendidos com a mãe. Às vezes, toma banho de sal grosso e de mel, porque “mal não faz”. E usa roupas de cores claras, leves. “Olha, resumindo, é aquilo: no creo en brujas, pero que las hay, las hay”, brinca.

Nascida em Porto Alegre, em 1975, aos 3 anos se mudou para o Uruguai, onde o pai, José Vicente, precisava administrar negócios da família após Brizola ter sido obrigado a deixar o exílio no país por pressão da ditadura brasileira. No início dos anos 80, quando o avô voltou ao Brasil e se elegeu governador do Rio de Janeiro, a família de Juliana foi junto para o estado e seus dois irmãos, um deles gêmeo, residem lá até hoje.

Na época, a transferência para o Rio acabou por deixar saudosos aqui os avós maternos, muito ligados aos netos. Para manter o convívio próximo, usaram uma estratégia que foi um sucesso. Compraram uma casa de veraneio em Garopaba. Por quê? Na época, a praia era o destino dos sonhos de dez entre dez surfistas gaúchos. E a mãe de Juliana, Nereida Daudt, lembra a filha “foi a primeira surfista mulher do RS”.

Da infância até o início da vida adulta, os anos se dividiram entre os meses escolares no Rio e longos verões em Garopaba. Uma combinação que fez nascer seu amor pelo surfe e pela natação e o modo de falar no qual erres e esses arrastadinhos se misturam a frases que terminam bem marcadas, bem ao estilo gaúcho.

O retorno ao RS não estava nos planos de Juliana até o término da faculdade de Direito. Apaixonada por Direito Penal, durante a graduação estagiou em presídio, chegou a cogitar seguir carreira na polícia, passou uma temporada nos Estados Unidos e pensava em ser professora. Tudo no Rio. Mas o destino parecia ter outros planos.

“Comecei a procurar pós-graduações em Penal e descobri que aqui na PUCRS tinha um mestrado em Ciências Criminais com um padrão muito alto e um pensamento inovador de combate à violência. E aí, em 2000, eu vim.” E casou com o namorado gaúcho e ligado ao PDT, “com direito a igreja, festa, vestido e tudo”. O casamento durou seis anos e abarcou a época em que a militante da juventude pedetista começou a se transformar na política que tem o diálogo como norte.

Com a morte de Brizola em 2004, a pressão partidária para que os herdeiros assumissem protagonismo político se intensificou. Juliana, contudo, só aceitou entrar em uma eleição em 2008.

“Algumas pessoas devem pensar que é fácil, mas é o contrário, é mais difícil. Porque o tempo todo tem um questionamento sobre quem tu és, tem alguém para dizer que tu estás na sombra, te botar para baixo, e eu tinha visto isso impactar minha família. Mas aí comecei a perceber também que, para ter voz e vez, tinha que ir para o voto. Hoje, não me enxergo fazendo outra coisa”

Eleita a vereadora mais votada do PDT em Porto Alegre, já havia conhecido na época o segundo marido, também do PDT, e pai de seus dois filhos. A vitória na política, contudo, veio logo após um acontecimento da vida pessoal que abalou Juliana: uma perda gestacional aos cinco meses de gravidez, que adiou o sonho de ser mãe até o ano seguinte. “Ah, foi aquilo, né? O José Inácio nasceu em dezembro de 2009 e, em junho, comecei campanha para deputada estadual. Guria, andei o Estado inteiro com ele, amamentando, trocando fralda. Depois de me eleger, a mesma coisa, levava para a Assembleiadireto.”

Com a franqueza que lhe é característica, a candidata descreve os anos passados no Legislativo gaúcho como de aprendizado em tempo integral. “Quando tu entras, não tem ninguém para te ensinar, não tem parceria, aprende quebrando a cara. Primeiro, aprendi que os inimigos não estão obrigatoriamente nos outros partidos. Depois, percebi que não é verdade que teu campo sempre vai estar contigo. Às vezes, tu vais conseguir apoio mesmo é do outro lado. Por fim, entendi que nada acontece se tu não te livrares dos teus próprios preconceitos e conversar com quem pensa diferente.”

No final da eleição seguinte para a Assembleia, em setembro de 2014, nasceu sua segunda filha, Angelina, prematura, com 32 semanas, e a pedetista se afastou da campanha. Terminou a corrida na primeira suplência. Com a cassação de Diogenes Basegio, assumiu a titularidade de uma cadeira. E comprou briga dentro do PDT, porque não se furtava a defender, na tribuna, a saída da sigla do governo de José Ivo Sartori.

Juliana Brizola abordou questões da maternidade durante entrevista
Juliana Brizola abordou questões da maternidade durante entrevista | Foto: Mauro Schaefer

Ao mesmo tempo, Angelina não se mostrava tão dócil quanto o primogênito no acompanhamento da rotina de trabalho da mãe. “Ela chorava desde a hora que entrava até a hora que saía da Assembleia.” A situação adversa também serviu de aprendizado, inspirando a deputada a apresentar um projeto para obrigatoriedade de salas de amamentação nos órgãos públicos. O texto levou sete anos para ser aprovado.

Após mais conquistas e derrotas nas urnas, em 2024 Juliana concorreu de novo à prefeitura. A campanha começou desacreditada, mas costuras que articulou pessoalmente quase a levaram ao segundo turno. A surpresa veio mesmo, contudo, quando uma fatia dos eleitores seguiu todo 2025 e o início de 2026, escolhendo seu nome em sondagens ao Piratini. E o que parecia impossível aconteceu: sua resiliência desencadeou um acordo nacional que culminou com o apoio do PT e do PSol gaúchos.

“Eu não podia virar as costas para as pessoas. Comecei a sentir a responsabilidade. Fora a vontade que tenho de reerguer o PDT e o trabalhismo, que é a corrente política genuinamente gaúcha.” As urnas dirão neste ano à neta de Brizola se uma máxima existente no meio político é mesmo verdadeira: a de que, estratégias e costuras à parte, eleição para o Executivo, no fundo, é sempre destino.