Sábado, 05 de Setembro de 2026

Luciano Zucco: Candidato fala de segurança, família e intensidade

Ele começou a carreira no Exército, mas, por influência de Bolsonaro, decidiu ir para a política.

Por: Redação Acontece no RS Fonte: Correio do Povo
05/09/2026 às 18h24
Luciano Zucco: Candidato fala de segurança, família e intensidade
Zucco diz ser agitado, os amigos falam que é ‘ligado no 220’ e interlocutores o definem como cordial Foto : Alina Souza

A neblina relutou em ir embora na manhã de inverno em Porto Alegre, e, apesar de o sol ter aparecido, a umidade era visível na orla do Guaíba quando o candidato do PL ao governo do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco, chega para a entrevista.

Mal terminam os cumprimentos iniciais, ele já começa a caminhar pelo entorno do Monumento dos Voluntários, instalado quase ao lado da chaminé do Gasômetro, e local que escolheu para conversar. Ao mesmo tempo em que se movimenta, tira o casaco, pergunta qual vai ser o espaço, demonstra preocupação sobre se a equipe está com frio, abre um sorriso e assegura: “em meia hora te conto minha vida inteira.”

Na sequência, começa a mostrar a tatuagem com a imagem dos dois filhos mais velhos no pulso esquerdo. O mesmo adornado por uma pulseira com a inscrição “tudo posso naquele que me fortalece.” A agitação não é devida ao período de campanha, ou a correria da agenda. Zucco, os amigos sabem, os adversários também, é “ligado no 220.”

Ele emenda um assunto no outro, conta histórias, passa de um tema da vida particular para fatos da vida política, gesticula em tempo integral. “Sou agitado. Sempre fui assim, eu gosto de me provocar. No Exército, fiz mais de 20 cursos, na área de Inteligência, fiz na Swat (a special weapons and tactics, unidade de polícia especial norte-americana) lá nos Estados Unidos, fiz de defesa pessoal, sou campeão do tiro. Eu vivo bem, sou intenso, cinestésico, gosto de abraçar. Quando eu gosto, gosto demais. E quando coloco uma coisa na cabeça, vou até o fim.”

A ascendência italiana (a família da mãe é de Bento Gonçalves, a do pai de Farroupilha), apesar de o candidato ter nascido em Alegrete, explica, segundo ele, a intensidade, a importância que dá aos vínculos familiares e aos amigos. E também a emotividade com que enfrenta os bons e os maus momentos da vida.

“Sou chorão. Eu choro de vez em quando sim. Principalmente quando me deparo com situações que envolvem crianças, idosos. Ao mesmo tempo, sou um cara aguerrido para as pautas da segurança. É que eu acredito que o ser humano é, assim, uma média das pessoas com quem ele convive. Se eu começar a conviver contigo, vai haver essa troca. Lá no Congresso, por exemplo, como líder da oposição, todo mundo ali falando mal do governo, vou ficar com essa energia.”

A característica pode parecer contraditória, e não raro surpreende quem conhece pouco o deputado e se habituou a vê-lo em eventos públicos e momentos de tensão no Congresso, mas não acompanha sua convivência cordial de bastidores com colegas de outros matizes ideológicos. Mas, no meio político, adversários se acostumaram ao seu estilo meio “camaleão”, costumam dizer que conhecem dois Zuccos, e consideram o parlamentar um interlocutor acessível e agradável.

Luciano Zucco nasceu em Alegrete, em 1974, onde o pai, capitão do Exército, e hoje falecido, estava lotado na época. Antes de chegar a Porto Alegre, sete anos mais tarde, em função do serviço militar do pai, a família ainda passou por Tarauacá, no Acre, por Lages, em Santa Catarina, e por São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, na tríplice fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela. “No Amazonas não tinha cachorro, era cobra, onça, uns macaquinhos que o pai tirava o tempo todo da horta. No Acre foi onde eu quase morri. Lá, no meio do nada, fiquei doente, 40 graus de febre, as pernas molinhas, disseram que podia ser paralisia infantil. Minha mãe entrou em uma canoa sozinha com um índio, atravessou para a Bolívia e fui tratado por um médico alemão. Me curou a minha mãe. Até hoje tem uma música de flauta boliviana que a gente ouve e chora junto.”

Em 1981 a família retornou a Porto Alegre, mas a vida continuou dando piruetas. Os pais se separaram, a mãe assumiu os cuidados com os quatro filhos, o dinheiro encurtou. “Foi punk, a gente passou por uns períodos bem difíceis.” Na época, a família morava na Verissimo Rosa, no Partenon, e Zucco estudava no Padre Rambo. A mãe, professora, às vezes viajava, vendendo abrigos para colégios e quartéis. “Eu, quando queria comprar um tênis, um negócio assim, tirava um trocado vendendo pano de prato. Foi difícil, mas não foi por muito tempo não.”

Quando estava na sexta série, ele entrou no Colégio Militar e, dali, foi para a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Casou, teve dois filhos, a união durou 13 anos. Ficou pouco tempo solteiro até encontrar a atual esposa, Joyce, com quem teve a filha caçula. “Gringo carente”, resume, ao admitir que não consegue ficar sozinho.

Com carreira promissora no Exército, onde ocupava o posto de tenente-coronel, não pensava em “se meter com política” até a aproximação com Jair Bolsonaro e o convite feito pelo então já pré-candidato à presidência a ele em 2017. Depois da conversa, consultou a família, e todo mundo foi contra. Os amigos diziam que era grande o risco de não se eleger e acabar ficando malvisto no Exército.

Mas o momento político, novas conversas, o apoio de um dos irmãos e a personalidade inquieta acabaram sendo decisivos. Zucco não pleiteou um cargo federal, como queria Bolsonaro. Ao invés disto, disputou uma cadeira na Assembleia Legislativa. Acabou como o mais votado para o Legislativo gaúcho em 2018. Em 2022 repetiu o recorde, dessa vez para a Câmara dos Deputados.

A ligação da família sempre foi com a segurança pública. Um dos irmãos é general em São Paulo, o outro, delegado (que também acabou indo para a política). A irmã, escrivã de polícia. E o padrasto, brigadiano. “A gente brinca que só a minha mãe é normal. É ela que faz Reiki para essa galera toda.”

Zucco optou por conceder a entrevista próximo ao Gasometro
Zucco optou por conceder a entrevista próximo ao Gasometro | Foto: Alina Souza

Para além da política e da segurança, ele gosta de tomar um vinho no frio da Serra, de feirinhas de antiguidades, de praticar esportes. No judô, chegou até a faixa marrom. É gremista e professor de futebol, apesar do pouco tempo que tem sobrado para a bola. Na correria da campanha, quando dá para fazer uma atividade física, prioriza a academia. Cita rock e MPB, com a ressalva de que seu gosto musical é eclético. Mas romântico. “Eu sou da época do Love Songs. Ficava a madrugada inteira escutando música lenta. A geração dos anos 70, 80, era outra pegada. Sem contar que não tinha isso aqui”, diz, apontando o celular.

Faltou dizer o que levou Zucco a escolher conversar junto a um monumento que muitos ainda nem sabem que existe, já que ele adora o Brique da Redenção e está feliz da vida na casa da zona Sul. É que foi neste lugar que, em 2024, ele participou das ações de auxílio para os atingidos pelas enchentes. “Tinha gente sorrindo, chorando, trazendo café, um pedaço de bolo, galão de combustível. Ninguém queria saber de ideologia, partido, todo mundo só queria ajudar. Para mim, é um exemplo do que a gente precisa buscar na política e na vida.”