
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou, nesta terça-feira, uma ofensiva interestadual para desarticular uma organização criminosa especializada no golpe do “Falso Executivo”. Denominada como Operação Interface, a ação foi conduzida pela 3ª Delegacia de Polícia de Canoas, com apoio de unidades de outros estados e do Ministério da Justiça.
O grupo é investigado por causar prejuízo de mais de R$ 193,6 mil a uma empresa do setor industrial gaúcho, após enganar uma funcionária do setor financeiro com mensagens que simulavam ordens de um dirigente da própria companhia.
De acordo com a investigação, a vítima recebeu mensagens de um número de telefone que utilizava a foto do presidente da empresa. Como o executivo estava em viagem e tinha histórico de autorizar pagamentos por aplicativo, a funcionária realizou as transferências, acreditando se tratar de uma solicitação legítima. Os valores foram rapidamente distribuídos entre diversas contas bancárias controladas pelo grupo criminoso.
As apurações apontam que a organização atuava de forma estruturada, com divisão de funções entre integrantes. Entre eles, os chamados “conteiros”, responsáveis por ceder contas bancárias para o recebimento dos valores, e os “tripeiros”, encarregados de recrutar titulares dessas contas em troca de comissão. Também foram identificados articuladores e executores do golpe.
Segundo a Polícia Civil, o grupo operava principalmente a partir dos estados de Mato Grosso e Rio Grande do Norte, utilizando um esquema de pulverização financeira para dificultar o rastreamento do dinheiro e o bloqueio judicial, com transferências rápidas para dezenas de contas em diferentes regiões do país.
A operação cumpriu 87 medidas cautelares, sendo 60 mandados de busca e apreensão e 27 mandados de prisão. Até o momento, 16 pessoas foram presas: 10 em Mato Grosso e 6 no Rio Grande do Norte. As diligências seguem para localizar outros investigados que continuam foragidos.
Durante a ação, também foram apreendidos veículos, dinheiro, celulares, chips telefônicos e documentos utilizados na execução dos golpes, que serão analisados pela investigação.
A delegada Luciane Bertoletti destaca que esse tipo de golpe tem se tornado cada vez mais comum no ambiente corporativo brasileiro. Os criminosos estudam a estrutura das empresas, identificam executivos e funcionários com acesso ao setor financeiro e utilizam fotografias, nomes e informações públicas para criar perfis falsos extremamente convincentes.
O Diretor da Delegacia Regional Metropolitana de Canoas, delegado Cristiano Reschke, enfatiza a gravidade da profissionalização desses nichos criminosos. “O que testemunhamos nos últimos anos é uma transição alarmante: grupos que antes atuavam em crimes convencionais migraram para o ambiente digital, desenvolvendo uma especialização técnica sem precedentes em estelionatos e extorsões”, afirma.
Reschke ressalta que, mais do que quadrilhas isoladas, foram identificados verdadeiros ecossistemas do crime que operam como 'escolas', onde táticas de fraude são disseminadas e novos criminosos são recrutados e treinados. “Assim como Passo Fundo consolidou-se historicamente como um polo do golpe do bilhete, estados como Mato Grosso, Rio Grande do Norte e São Paulo têm concentrado núcleos altamente sofisticados de fraudes eletrônicas. A Operação Interface é uma resposta contundente da Polícia Civil a essa rede interestadual, reafirmando nosso compromisso em desarticular não apenas os executores, mas toda a estrutura logística e financeira que sustenta o crime organizado no ambiente virtual”, completa.