
Com a vitória conquistada neste segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito para um quarto mandato. A campanha deste segundo turno teve foco total nas plataformas e redes sociais, abdicando até mesmo da participação em parte das sabatinas. Apesar da virada inédita nas urnas em um segundo turno e da recondução ao cargo, está posto ao presidente o desafio de governar o país com um Congresso mais alinhado com a direita. Tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal, o partido que mais cresceu foi o PL, seguido pelo Novo, em ambas as casas.
Ainda que PT, PSol e PCdoB tenham mantido as vagas ou passado por um crescimento moderado, isso não se compara ao aumento do PL, que ganhou 23 cadeiras na Câmara e 13 no Senado. Para esse aumento, alguns partidos de direita perderam espaço para o PL, como é o caso do PP, do União Brasil e dos Republicanos, que tiveram uma baixa de 12 vagas na Câmara e duas no Senado. No entanto, os mais penalizados neste processo foram os partidos do “Centrão”, como é o caso do MDB, PSD e PSDB, que somados perderam 13 vagas na Câmara e 12 no Senado.
Com a redução do espaço dos partidos de centro, historicamente mais abertos a negociar pautas, o presidente eleito precisará aumentar a articulação com o Congresso Nacional. “O Lula terá dificuldade de lidar com esse Congresso e Senado, que parecem ter uma coesão ideológica da direita mais marcante. No entanto, a maior variável é como equacionar a boa relação com o ‘Centrão’, que continua sendo o fiel da balança da governabilidade”, comentou Juliano Corbellini, publicitário e mestre em Ciência Política.
O especialista destaca a necessidade de o presidente reeleito construir um caminho sólido de diálogo com o centro, mais estruturado que no último mandato, de 2023 a 2026.
Gabriel Adam, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, reforça a necessidade de Lula manter uma relação coesa com o centro até mesmo para que as pautas tidas como importantes cheguem ao plenário. “As pautas precisam passar pelas comissões, então acredito que essa vai ser uma grande dificuldade do governo”, ponderou.
Fundamental na estratégia de “virada de voto” adotada pela esquerda no segundo turno da eleição, a mobilização popular nas ruas, redes sociais e plataformas também é apontada como algo que deve auxiliar Lula na governabilidade, caso o movimento seja mantido. “O presidente tem que manter uma relação mais estreita com a base popular dele, com a base do partido, que se mobilizou neste segundo turno, mas que raramente tem se mantido mobilizada”, comentou Adam.
O especialista pondera que o desgaste passa pela comunicação, atravessada pelo insucesso de comunicar determinadas medidas e por um desempenho econômico abaixo do esperado, principalmente se comparado aos de outros mandatos de Lula. Apesar dessa dificuldade recente da esquerda, Adam usa a mobilização pelo fim da escala 6 por 1 como exemplo da influência que a mobilização pode exercer sobre decisões do Congresso.
“Quando a população compreende o cenário de disputa, o que está sendo colocado em jogo, consegue fazer uma pressão muito grande. Tanto que houve a reversão de votos de deputados e deputadas, inclusive do próprio Flávio Bolsonaro (enquanto senador)”, pontuou.
O cientista político indica também a possibilidade de adotar uma estratégia diferente daquela utilizada pelo PT até aqui. O partido costuma começar pelas negociações no Parlamento para depois engajar as bases e articular mobilizações populares. “Se seguir pelo caminho que costuma seguir, acredito que não vai ter muita chance, já que o Congresso está com a direita com um peso muito grande”, comentou.