Quinta, 27 de Agosto de 2026

Trabalhar em casa nem sempre funciona: o que leva profissionais ao coworking

Queda no home office, recorde de afastamentos por saúde mental e expansão dos escritórios compartilhados redesenham a rotina de quem trabalha fora do modelo tradicional

Por: Lucas
27/08/2026 às 14h31
Trabalhar em casa nem sempre funciona: o que leva profissionais ao coworking
Pexels

A cadeira da sala de jantar castiga a coluna depois da terceira hora. A campainha toca no meio da videochamada com o cliente. O expediente escorrega para as nove da noite porque nunca existiu um momento claro de fechar a porta e ir embora.

Quem passou os últimos anos trabalhando de casa reconhece a cena. O que poucos previam, em 2020, é que o arranjo improvisado durante a pandemia se transformaria em um problema silencioso de produtividade e saúde para uma parcela relevante dos profissionais brasileiros.

O movimento de retorno não é uma impressão. Ele aparece nos dados oficiais, nos registros de afastamento do trabalho e no crescimento acelerado de um mercado que passou a receber justamente quem tentou o modelo doméstico e concluiu que ele não servia.

O trabalho em casa parou de crescer no país

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, registrou queda pelo segundo ano consecutivo na parcela de brasileiros que trabalham dentro da própria residência.

Em 2022, o índice chegou ao ponto mais alto da série, com 8,4% dos ocupados. Caiu para 8,2% em 2023 e fechou 2024 em 7,9%, o equivalente a cerca de 6,6 milhões de pessoas.

O levantamento considera um universo de 82,9 milhões de trabalhadores e exclui do cálculo os empregados do setor público e os trabalhadores domésticos.

A leitura de longo prazo é mais interessante do que a queda recente. Em 2012, apenas 3,6% dos ocupados trabalhavam onde moravam. Em 2019, antes da pandemia, o índice estava em 5,8%. Ou seja: o país recuou do pico, mas segue muito acima do patamar anterior. O modelo não desapareceu, ele se acomodou.

Há um detalhe metodológico que costuma passar despercebido e que explica parte da história. Analistas do IBGE reconhecem que a categoria "trabalho no domicílio" também abriga quem, na prática, sai de casa e vai para um escritório compartilhado.

A pessoa diz que trabalha de casa, mas cumpre boa parte da jornada em uma mesa alugada. O dado enxerga o vínculo, não o endereço em que o notebook é aberto todos os dias.

Outro recorte chama atenção: as mulheres representavam 61,6% dos trabalhadores em regime domiciliar em 2024. Entre elas, 13% atuavam nessa condição, contra 4,9% dos homens, o que sugere que a sobreposição entre casa e expediente atinge de forma bastante desigual quem já acumula tarefas domésticas e cuidado com filhos.

A conta invisível de dividir a casa com o expediente

Enquanto o home office recuava, outro indicador subia sem interrupção. Dados do Ministério da Previdência Social apontam que o INSS concedeu 472.328 afastamentos por transtornos mentais em 2024, alta de 68% em relação ao ano anterior.

Em 2025, o número passou de 534 mil concessões, novo recorde, com custo superior a R$ 3,5 bilhões em benefícios. Ansiedade e depressão lideram a lista de diagnósticos.

Ninguém sustenta que trabalhar em casa seja a causa desse quadro. O adoecimento no trabalho tem raízes em jornada, cobrança por resultados, insegurança econômica e assédio.

Mas o isolamento prolongado entrou no debate técnico, e não por acaso: quando o recorte é feito por proporção populacional, Distrito Federal, Santa Catarina e Rio Grande do Sul aparecem entre as unidades da federação com maior incidência de afastamentos por essa causa, justamente regiões com forte presença de serviços administrativos, tecnologia e ocupações que migraram para o formato remoto.

A legislação acompanhou o movimento. As empresas brasileiras passaram a ter que considerar riscos psicossociais, como estresse, carga mental excessiva e assédio, dentro da gestão de segurança e saúde no trabalho. O ambiente deixou de ser assunto restrito ao mobiliário e à iluminação.

Para o profissional autônomo, que não tem departamento de recursos humanos olhando por ele, a conta chega de outro jeito. Ela aparece na dificuldade de encerrar o dia, na perda de referência entre descanso e produção, na sensação de que a semana inteira virou um bloco contínuo.

E aparece também em despesas que raramente entram na planilha: ar-condicionado ligado o dia todo, internet reforçada, cadeira que precisou ser trocada, o segundo monitor, o café que ninguém repõe.

Escritório compartilhado deixou de ser coisa de startup

O mercado que absorve essa demanda cresceu em ritmo pouco comum para o setor imobiliário. O Censo Coworking, levantamento anual da Woba, registrou salto de 2.443 para 2.986 espaços ativos no Brasil em uma edição, expansão de cerca de 20%. Na edição seguinte, o número chegou a 3.886 unidades, avanço de 30,14%.

A distribuição também diz algo. Aproximadamente 58,5% dos espaços estão em capitais. São Paulo lidera com 1.121 unidades, seguido por Minas Gerais, com 307, Rio de Janeiro, com 251, e Santa Catarina, com 192.

No Rio Grande do Sul, o modelo se espalhou para além de Porto Alegre e chegou a cidades médias do interior, movimento observado em polos como Caxias do Sul, Passo Fundo e a região do Vale do Sinos, onde o público predominante são prestadores de serviço, escritórios de contabilidade e times pequenos de tecnologia.

Mudou também quem ocupa as mesas. O perfil deixou de ser majoritariamente formado por freelancers e fundadores de startups.

Levantamentos recentes do setor mostram que áreas como financeiro, vendas e tecnologia respondem por 57,5% do uso desses espaços, com empresas de grande porte alugando estações para times inteiros em vez de manter andares corporativos ociosos.

O que os operadores enxergam antes do cliente

Na análise de quem trabalha com coworking no Distrito Federal, a procura raramente começa pelo preço. Ela costuma começar por um incômodo específico e concreto: o profissional precisa receber um cliente e não tem onde; precisa gravar um vídeo sem o cachorro do vizinho ao fundo; precisa de uma sala de reunião por duas horas, não de um contrato de aluguel de cinco anos. A demanda chega fragmentada, e o modelo se organizou para respondê-la por hora, por diária ou por posto fixo.

Brasília ilustra bem esse desenho, porque concentra consultorias, escritórios de advocacia, empresas que prestam serviço ao governo federal e profissionais que precisam de um endereço com peso institucional para negociar contratos. O mesmo raciocínio se repete em qualquer capital com forte setor de serviços.

Endereço comercial e a burocracia que pesa no CNPJ

Existe uma camada do tema que passa longe da conversa sobre produtividade e que motiva boa parte das contratações.

Muitos empreendedores não conseguem registrar a empresa no endereço residencial. Convenções de condomínio proíbem, prefeituras restringem determinadas atividades em zona residencial e alguns contratos exigem sede comercial declarada.

O domicílio fiscal contratado em um espaço compartilhado resolve essa exigência formal, junto com a gestão de correspondência e o recebimento de notificações.

Os valores partem de faixas próximas a R$ 99 mensais para endereço comercial e domicílio fiscal, enquanto planos de escritório virtual com linha telefônica exclusiva costumam começar perto de R$ 169.

Estações de trabalho em regime de coworking têm pisos mais altos, na casa dos R$ 799 mensais em unidades de padrão elevado, e salas de reunião são cobradas por hora, geralmente entre R$ 42 e R$ 80. Os números variam bastante conforme cidade, localização e estrutura.

Para quem trabalha sozinho, esse é o ponto em que a comparação com o aluguel tradicional deixa de ser abstrata. Uma sala comercial exige fiador, seguro, reforma, mobília, contas separadas, IPTU e contrato longo. A mesa compartilhada elimina praticamente toda essa camada.

Quando a troca não compensa

O modelo não serve para todo mundo, e fingir o contrário seria desonesto com quem está avaliando a mudança. Quem tem um cômodo dedicado em casa, rotina previsível, poucos compromissos presenciais e mora longe do centro provavelmente perde tempo e dinheiro no deslocamento diário sem ganhar nada em troca.

Há também o ruído. Ambientes abertos concentram conversas, ligações e circulação constante, o que atrapalha profissionais que dependem de silêncio prolongado, como tradutores, programadores em tarefas complexas e pesquisadores. Nesses casos, a alternativa costuma ser a sala privativa ou o uso pontual do espaço apenas em dias de reunião.

O cálculo honesto envolve somar o custo mensal do plano, o transporte, a alimentação fora de casa e o tempo gasto no trajeto, e comparar esse total com o que a rotina doméstica está de fato custando em concentração, contatos profissionais e separação entre vida pessoal e trabalho.

Sinais de que a casa deixou de funcionar

Alguns indícios aparecem com frequência nos relatos de quem acabou fazendo a mudança. O expediente perdeu horário de término. A agenda semanal não tem nenhum contato presencial com outro profissional da mesma área.

Reuniões importantes acontecem em ambiente que não transmite seriedade. Dores nas costas e no pescoço viraram rotina. A produtividade caiu sem explicação clara, e a motivação foi junto.

Nenhum desses sinais isolado justifica romper com o trabalho em casa. Somados, indicam que o arranjo montado às pressas em 2020 já cumpriu o papel dele e que talvez seja hora de separar novamente os dois endereços, mesmo que por três dias na semana.

O trabalho mudou de forma definitiva, e o dado do IBGE mostra isso com clareza. O que ainda está em disputa é onde, exatamente, ele vai acontecer.