
Porto Alegre concentra cerca de um terço da população em situação de rua de todo o RS. Para quem caminha pelas ruas do Centro Histórico e outros bairros nos arredores, como Cidade Baixa e 4° Distrito, a presença de pessoas dormindo abaixo de marquises, em recuos ou na frente de prédios são uma constante. Apesar de notarem o crescimento, nem todos atribuem essa tendência diretamente à enchente. Alguns constroem “casas” nas calçadas com materiais que encontram pelas ruas.
A Capital apresentou um crescimento acentuado deste indicador desde à enchente de 2024. No entanto, este grupo vem crescencendo desde 2020. Conforme os dados disponibilizados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o município de Porto Alegre tinha o registro de 3208 pessoas em situação de rua no Cadastro Único (CadÚnico) em 2020. Até o fim de 2025, a marca atingiu 6712 pessoas, representando um aumento de 109% no período.
Os comerciantes e os moradores vivem um misto de sensações por conviverem com essa realidade. O medo de episódios de surto é um ponto frequente, que se somam aos moradores que comentam não notar grandes movimentos ou ações do poder público para lidar e acolher a população de rua.
A lojista Naiara Freitas, que trabalha em um ponto comercial na Rua Marechal Floriano Peixoto, no Centro Histórico, comentou que as poucas abordagens se limitam a episódios de surto. “Esses dias, uma morador de rua tava ali em frente, deitado, gritando em surto. Algum agente da guarda municipal chegou, conversou um pouco com ele e depois foi embora” comentou Naiara, enquanto fechava a loja com o colega. “Aquilo não mudou nada para aquela pessoa que tava em surto”, completou.
A gerente comercial Priscila Andreis, moradora do Centro Histórico, notou o aumento após a enchente e que existem algum pontos comuns de agrupamento da população em situação de rua. “Não é incomum vermos as pessoas juntas, principalmente nesses dias mais frios. Ali embaixo do Viaduto da Conceição eu sempre vejo, além da Praça Conde de Porto Alegre, dormindo até no meio dos arbustos”, comentou a gerente comercial.
Os moradores acabam reconhecendo quem vive pelas ruas, o que nem sempre ameniza o medo de algum incidente, em especial um surto violento. “Nós reconhecemos eles, já que eles não saem das ruas. Acabamos conhecendo os nomes, às vezes um pouco da história, mas não impede que haja uma preocupação, né? Tem dias que estão bem, em outros podem estar instáveis”, acrescentou Priscila. “Apesar do aumento, não me recordo de atuações ou acolhimento para eles aqui pelo Centro”, completou.
Integrante do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) desde 2019, Nilson Lopes comenta que, além de empatia, é necessária uma mudança nas abordagens. “As únicas políticas que chegam são as de saúde e assistência social, mas que não vão dar conta de lidar com essa questão. É necessário articulações que envolvam trabalho, moradia e geração de renda”, comentou.
Nilson, que tem 65 anos, viveu cerca de 30 anos em situação de rua e há 15 anos se libertou do alcoolismo. Atualmente, trabalha como facilitador do Colaboratório Nacional da População de rua, que tem como tarefa uma pesquisa sobre saúde da população de rua, sendo um projeto parceiro da Fundação Oswaldo Cruz e do Ministério da Saúde.
Para o agente, a enchente acentuou o crescimento não somente pelos danos permanentes em milhares moradias, mas pelo impacto na saúde da população em geral. “Esse contexto (da enchente) agravou várias questões de saúde, tanto física quanto mental, com mais casos de doenças infecciosas, sofrimento psicológico e aumento do uso de substâncias psicoativas”, completou Nilson.
A professora e psiquiatra Maria Gabriela Godoy, especialista em saúde coletiva e atendimento a população de rua, reforça a importância de um acompanhamento contínuo e multidisciplinar. “Não conseguimos, para um problema tão complexo quanto a população em situação de rua, dar respostas através apenas de um setor, seja da assistência social ou saúde. Precisamos pensar em trabalho, renda e ressocialização” apontou.
Gabriela endossa a percepção dos moradores da região central, de que o efetivo de profissionais que atuam no acolhimento reduziu significativamente nos últmos anos. “Temos uma defasagem na quantidade de profissionais que possam ir para rua e fazer esse acompanhmento. A população de rua aumenta, mas o número de agentes atuando, não”, completou.
Quando se trata do processo de acolhimento e tratamento, aqueles que estão nessa situação também veem um cenário nebuloso e pouco seguro. O homem, que pediu para ser identificado apenas como Marcelo, é natural de Taquari e vive em situação de rua em Porto Alegre desde 2023. O catador transita pelas ruas da Capital junto da companheira, Bárbara, com um carrinho em busca de materiais recicláveis.
O catador vive nas ruas na companhia da mulher, que está enferma. Ele relata que o acesso a serviços básicos de sáude é difícil porque ambos estão sem os documentos. “Estou aqui desde um pouco antes da enchente. Não incomodo ninguém e trabalho com o meu carrinho de reciclagem. Mas agora vamos ter que correr para fazer os nossos documentos”, contou.
Ao ser questionado sobre os números atualizados de pessoas em situação de rua pelo CadÚnico, a prefeitura de Porto Alegre indicou que não vê os dados do CadÚnico como uma representação fiel da realidade vivida nas ruas de Porto Alegre. Em nota, também destacaram o Censo da População em Situação de Rua, que está sendo realizado em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e a Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Ufrgs (Feeng). Uma divulgação preliminar do levantamento está prevista para julho. O Correio do Povo também questionou a prefeitura sobre a preparação para ações de inverno para a população de rua, mas não houve resposta.
A Prefeitura de Porto Alegre esclarece que os dados sobre a população em situação de rua divulgados a partir do Cadastro Único (CadÚnico) não representam, necessariamente, o cenário atual observado nas ruas da Capital.
O CadÚnico é um instrumento destinado à identificação e caracterização socioeconômica de famílias para acesso a programas sociais. As informações registradas são autodeclaradas pelos cidadãos e dependem de atualização periódica, o que pode resultar em defasagens e divergências em relação à realidade encontrada nos territórios.
Para obter um retrato mais preciso, a Prefeitura de Porto Alegre realiza a quarta edição do Censo da População em Situação de Rua, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e a Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Ufrgs (Feeng).
A etapa de coleta de dados em campo já foi concluída e o levantamento encontra-se em fase de análise. O estudo trará informações detalhadas sobre o perfil socioeconômico dessa população, fatores que contribuem para a situação de vulnerabilidade, acesso aos serviços públicos e perspectivas de reinserção social.
A divulgação dos resultados preliminares está prevista para julho. A prefeitura reforça que o censo em andamento será a principal referência para dimensionar a realidade atual da população em situação de rua em Porto Alegre e orientar a formulação de políticas públicas voltadas a esse público.