
O inverno rigoroso que castiga o Rio Grande do Sul nas últimas semanas não está fazendo mal só a quem precisa ligar o aquecedor — está mexendo direto no bolso de quem vai à padaria todo dia. O preço do trigo subiu no mercado gaúcho, e os efeitos já chegam ao pão francês, ao macarrão e à farinha do supermercado.
Quem sentiu na prática foi Silvana Rodrigues, dona de casa de Cruz Alta, uma das regiões mais frias do RS neste ano. "A padaria aqui do bairro aumentou o pão duas vezes em menos de um mês. A gente percebe, porque compra todo dia", conta ela. O que parece um reajuste corriqueiro tem explicação nas lavouras.
O frio e a lavoura: uma relação direta
O trigo é a principal cultura de inverno do Rio Grande do Sul, e o estado responde por boa parte da produção nacional do grão. Mas o frio intenso fora de hora — especialmente as geadas tardias que ocorreram em regiões do Planalto Médio e Missões — pode comprometer a qualidade do grão ainda em desenvolvimento nas lavouras.
Quando isso acontece, a oferta disponível de trigo de boa qualidade cai. Com menos produto apto para comercialização, os moinhos pagam mais caro pelo que sobra — e esse custo sobe em cadeia até chegar ao consumidor.
Segundo produtores rurais da região de Passo Fundo, referência no cultivo de trigo no RS, o clima deste ano exigiu mais atenção do que o habitual. "Tivemos geada em período crítico do desenvolvimento. Isso afeta direto o rendimento e a qualidade da farinha que vai ser moída", explica um triticultor da região que preferiu não se identificar.
Quanto isso representa no orçamento familiar?
Para quem compra pão todo dia, o impacto pode parecer pequeno no detalhe — mas soma no mês. Um quilo de pão que custava R$ 18 em muitas padarias gaúchas no início do ano já ultrapassa R$ 22 em diversas cidades do interior do RS. Isso representa uma alta de mais de 20% em poucos meses.
A farinha de trigo de 5 kg, item básico de quem cozinha em casa, também registra reajustes. Em redes de supermercado do RS, o produto passou de uma média de R$ 14 para valores entre R$ 17 e R$ 19, dependendo da marca e da cidade.
Para quem produz em maior escala, o impacto é ainda maior. Padeiros e confeiteiros do interior gaúcho relatam que a farinha representa até 35% do custo total de produção — qualquer variação no preço do trigo muda a conta do mês inteiro.
O trigo importado entra na equação
Parte do trigo consumido no Brasil vem da Argentina e do Paraguai. E aí entra outro fator: o câmbio. Com o dólar pressionado, o trigo importado também fica mais caro em reais, o que reduz a margem dos moinhos para absorver a alta sem repassar ao consumidor.
O resultado é uma combinação pouco favorável para o bolso do gaúcho: produção local pressionada pelo frio, importação encarecida pelo câmbio e demanda doméstica que não cai — porque pão é item básico, independente da estação.
A tendência para os próximos meses
Especialistas do setor de grãos acompanham a evolução da safra com atenção. Se as condições climáticas melhorarem nas próximas semanas e a colheita — prevista para o segundo semestre — não sofrer perdas adicionais, a tendência é de estabilização dos preços ainda em 2025.
Mas se as geadas continuarem afetando as lavouras gaúchas, o reajuste pode se consolidar e tornar o preço atual o novo patamar. Produtores e cooperativas do RS já trabalham com cenários alternativos para minimizar perdas.
O que fazer enquanto isso?
Para quem quer economizar sem abrir mão do pão de cada dia, algumas opções práticas ajudam. Comprar em padarias que produzem no local — geralmente mais baratas do que redes — e optar pela farinha de marca própria dos supermercados são estratégias simples que fazem diferença no orçamento mensal.
Fazer pão em casa também voltou a ser uma alternativa atrativa para famílias gaúchas que dispõem de um pouco de tempo. Com menos de R$ 5 em ingredientes, é possível produzir um pão caseiro que substituiria o que custaria o dobro na padaria.
Se você mora no RS e percebeu o aumento no carrinho de compras, fique de olho na colheita do trigo gaúcho nos próximos meses — ela vai ditar o preço do pão na sua mesa até o fim do ano.