
Uma geada forte queima o pasto em poucas horas. Para o produtor de leite ou de gado de corte no Rio Grande do Sul, isso significa um problema que não para na porteira: menos forragem disponível, animais com fome, queda na produção e custo de suplementação que pode chegar a R$ 800 por cabeça no inverno.
Nas regiões de Lagoa Vermelha, Soledade, Carazinho e no Alto Uruguai, onde o frio aperta mais cedo, os criadores já estão tomando as primeiras providências. Quem espera a geada chegar para agir, chega atrasado.
O que a geada faz com o pasto — e por que o gado de leite sofre mais
O azevém e o trevo branco, as pastagens de inverno mais comuns no RS, toleram geadas leves. Mas quando a temperatura fica abaixo de -3°C por mais de três horas, a folha da planta "queima" — ela murcha, escurece e perde o valor nutricional antes mesmo de secar.
Para o gado leiteiro, o impacto é imediato. A vaca em lactação precisa de uma quantidade mínima constante de matéria seca de qualidade para manter a produção. Com o pasto danificado, a queda começa em 24 a 48 horas — e recuperar o nível de produção depois leva dias, às vezes semanas.
Já no gado de corte, o efeito é mais lento, mas igualmente caro: o animal para de ganhar peso, ou até regride, quando a alimentação cai abaixo do exigido. Em confinamentos parciais no RS, produtores relatam que cada dia de estagnação no ganho de peso representa prejuízo direto no lote.
As estratégias que os gaúchos estão usando antes da geada
A primeira providência é simples e eficaz: diversificar as pastagens de inverno. Produtores que combinam azevém com aveia-preta e ervilhaca têm mais resiliência porque cada espécie responde diferente às baixas temperaturas. A aveia, por exemplo, tolera até -5°C sem perda significativa — algo que o azevém não aguenta.
A segunda estratégia, cada vez mais adotada na região da Serra Gaúcha e no Planalto, é a divisão de piquetes com pastejo rotacionado. Com áreas menores e rotação mais curta, o produtor evita que o animal destrua a planta no momento em que ela está mais frágil — exatamente o período pós-geada, quando a pastagem tenta se recuperar.
Para quem trabalha com leite, a palavra de ordem é antecipar a suplementação. Não esperar o pasto acabar para começar a oferecer silagem ou feno. Vaca estressada por fome produz menos por muito mais tempo do que o período em que ficou sem comer.
Silagem: o seguro alimentar do inverno gaúcho
Produtores mais estruturados no RS já fizeram essa conta há anos: a silagem de milho produzida no verão é o que sustenta o rebanho quando o pasto falha no inverno. O custo médio de produção de silagem no RS fica entre R$ 150 e R$ 200 por tonelada — bem abaixo do custo de comprar volumoso no mercado durante o inverno, quando o preço pode dobrar.
O problema é que pequenos produtores muitas vezes não têm estrutura para ensilar, e acabam pagando mais caro justamente quando mais precisam. Uma alternativa que cresce no RS é a silagem em consórcio — grupos de produtores vizinhos que dividem o custo de ensilar e partilham o produto conforme a necessidade de cada um.
O trigo também está na mira
Além do pasto, o trigo — que ainda está em desenvolvimento em boa parte do RS nesta época — também sente o impacto da geada nas fases de afilhamento e espigamento. Uma geada com temperatura abaixo de -2°C durante o espigamento pode comprometer toda a formação do grão, sem possibilidade de recuperação.
Produtores que plantaram trigo em áreas de baixada, onde o ar frio se acumula primeiro, são os mais vulneráveis. A recomendação de técnicos da Emater-RS é monitorar a previsão do tempo com pelo menos 48 horas de antecedência e, se possível, priorizar o pastejo nessas áreas antes da geada — aproveitando a forragem antes que ela seja perdida.
Mais tecnologia chegando ao campo gaúcho
Nas últimas safras de inverno, cooperativas como a Cotripal, a Copercampos e a Coopersulca passaram a disponibilizar alertas meteorológicos específicos por região, com notificação via WhatsApp quando a temperatura de risco se aproxima. O serviço é gratuito para associados e permite que o produtor tome decisões com até 18 horas de antecedência.
Parece pouco — mas no campo, 18 horas é a diferença entre salvar ou perder uma pastagem que levou semanas para crescer.
Se você cria gado de leite ou de corte no RS e ainda não tem um protocolo definido para o inverno, vale uma visita ao escritório da Emater da sua cidade ou uma conversa com a cooperativa regional. O atendimento é gratuito e o planejamento feito agora pode evitar um prejuízo considerável nas próximas semanas.