
Ter uma mesa de jantar grande na sala sempre foi considerado sinal de lar organizado. Mas especialistas em design de interiores estão questionando esse hábito — e cada vez mais famílias no RS estão dando razão a eles.
Claudia Fonseca, moradora de Caxias do Sul, tomou a decisão há seis meses. A mesa que ocupava quase um terço da sala de estar da família foi para o brechó. No lugar, entrou um sofá de dois lugares extra e uma prateleira de escritório. "A gente usava a mesa para comer junto talvez quatro vezes no ano. O resto do tempo virava depósito de bolsas e correspondência", conta.
A situação de Claudia é mais comum do que parece. A designer de interiores Laura Martínez, referência internacional no assunto, deu uma declaração que viralizou entre arquitetos e decoradores: não faz sentido perder metade de uma sala de estar por uma mesa de jantar usada três vezes por ano. A afirmação provocou debate, mas escancarou uma realidade que poucos têm coragem de admitir.
Por que isso acontece no RS?
O gaúcho tem o hábito cultural do churrasco e das reuniões de família — momentos que, em geral, acontecem no pátio, na área de lazer ou na cozinha integrada. A sala de jantar formal, herança de gerações anteriores que moravam em casas maiores, perdeu função com a chegada dos apartamentos compactos que dominam o mercado imobiliário de Porto Alegre, Novo Hamburgo e Gramado.
Enquanto um apartamento de dois dormitórios no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, custa em média R$ 400 mil, cada metro quadrado aproveitado representa dinheiro real. Colocar 4 metros quadrados à disposição de uma mesa que fica vazia a maior parte do ano é, segundo Martínez, um hábito herdado que não combina mais com a vida real das pessoas.
Outro ponto que ela destaca: muitas famílias têm duas mesas — a da cozinha e a da sala de jantar — sendo que a segunda raramente é usada. Em apartamentos integrados, onde a cozinha já tem conexão visual com a área social, essa duplicação de espaço faz ainda menos sentido.
O que colocar no lugar?
A tendência que está crescendo no RS é o aproveitamento desse espaço para home office, área de leitura ou simplesmente para ampliar a circulação da sala. Arquitetas de Pelotas e Santa Maria relatam aumento de pedidos de clientes que querem reformar justamente para eliminar a sala de jantar separada e integrar tudo em um ambiente único e funcional.
Móveis multifuncionais também têm ganhado espaço. Uma mesa dobrável fixada na parede, que abre apenas quando necessário, resolve o problema das reuniões ocasionais sem sacrificar o dia a dia. O custo de uma solução dessas gira em torno de R$ 800 a R$ 2.500 — muito abaixo dos R$ 3.000 a R$ 8.000 que uma mesa de jantar grande com cadeiras costuma custar.
A lógica é simples: adaptar a casa à vida real, não adaptar a vida real à casa.
Se você mora no RS e sente que a sua sala de jantar ocupa espaço sem entregar uso real no dia a dia, vale conversar com um arquiteto ou designer de interiores sobre alternativas. A mudança pode ser mais simples e barata do que parece — e o resultado, muito mais funcional.
Por Renata Oliveira — Redatora do Acontece no RS