Terça, 28 de Julho de 2026
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Do frango aos fertilizantes: como o bloqueio no Estreito de Ormuz pode afetar o RS

Conflito no Oriente Médio encarece insumos e ameaça a produtividade no Estado.

Por: Redação Acontece no RS Fonte: Correio do Povo
18/03/2026 às 09h35
Do frango aos fertilizantes: como o bloqueio no Estreito de Ormuz pode afetar o RS
Dados da Fiergs mostram que 85,6% das exportações gaúchas para o Oriente Médio têm como destino países com portos no Golfo Pérsico Foto : Manoel Petry / Divulgação ABPA / CP

A escalada do conflito no Oriente Médio, iniciada após ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, provoca efeitos diretos sobre a economia do Rio Grande do Sul. A principal preocupação está no bloqueio do Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo e um quinto do comércio global de gás natural liquefeito.

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A instabilidade na região, com registros de navios danificados e redução drástica no fluxo de embarcações, causa preocupações logísticas. Isso ocorre porque tanto o que o Estado exporta quanto o que importa depende, em grande parte, dessa rota marítima.

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Segundo o economista-chefe do Sistema Fiergs (Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul), Giovani Baggio, o risco à produtividade somado ao aumento nos custos ocorre em um momento já delicado para os produtores gaúchos.

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“O custo de produção aumenta no campo, em um cenário em que há produtores já endividados e problemas recorrentes de estiagem. Tudo isso é uma notícia bastante negativa”, afirma.

Como as exportações gaúchas são afetadas

Dados divulgados pela Fiergs indicam que 85,6% das exportações gaúchas para o Oriente Médio, cerca de US$ 1,1 bilhão, têm como destino países com portos no Golfo Pérsico, o que torna o escoamento altamente dependente da passagem pelo Estreito.

Entre os produtos mais expostos estão:

  • Proteína animal (abate de aves): principal item, com US$ 461,9 milhões exportados. O Oriente Médio absorve mais de um terço da produção gaúcha do setor.
  • Produtos à base de café: apresentam a maior dependência proporcional, com 62% das exportações destinadas à região.
  • Grãos: o milho (45,4%) e o trigo (8,9%) têm participação relevante no fluxo comercial.
  • Cadeia da soja: especialmente óleos vegetais e resíduos industriais enviados ao Irã.
  • Tabaco e celulose: com forte presença em mercados como Emirados Árabes Unidos e Iraque.
  • Horticultura: mais da metade das exportações do setor depende da região.

A interrupção ou encarecimento do transporte pode afetar diretamente a competitividade desses produtos, seja por atrasos, seja pelo aumento dos custos logísticos.

Dados da Fiergs sobre exportações do RS Dados da Fiergs sobre exportações do RS | Foto: Fiergs / Divulgação / CP

Dependência nas importações

Nas importações, o Rio Grande do Sul depende do Oriente Médio para insumos estratégicos, especialmente ligados à produção agrícola. Em 2025, o estado importou US$ 743,7 milhões da região, com forte concentração em alguns itens:

  • Matérias-primas para fertilizantes: 36,9% das compras gaúchas desse insumo vêm do Oriente Médio.
  • Adubos e fertilizantes: representam 20,5% do total importado pelo estado.
  • Produtos químicos inorgânicos: 14,9% de dependência.
  • Resinas termoplásticas: 11,1% das importações do setor.

Risco às safras

O economista da entidade afirma que o efeito tende a aparecer primeiro nas culturas de inverno, como trigo, cevada e centeio, cujo plantio começa a ser planejado neste período.

Já as lavouras de verão, como soja, milho e arroz, também podem ser afetadas caso a crise se prolongue, já que a compra de insumos é feita com antecedência.

Baggio ainda chama atenção para a possibilidade de retorno do fenômeno El Niño no segundo semestre, o que pode trazer excesso de chuvas e agravar ainda mais o cenário para uma safra já pressionada pelo aumento dos custos.

Rotas alternativas existem, mas são insuficientes

Rotas alternativas ao Estreito de Ormuz surgem como opção e ajudam a mitigar impactos, mas não são suficientes para resolver o problema, segundo Giovani Baggio. A principal delas passa pela Arábia Saudita, que tem portos no Mar Vermelho.

Ainda assim, mais de 85% do comércio gaúcho com o Oriente Médio tem como destino portos no Golfo Pérsico, o que exige a passagem pelo Estreito. Além disso, o desvio encarece as operações e esbarra em uma logística já estruturada para essa rota, limitando sua adoção no curto prazo.

Redirecionar exportações no curto prazo é desafio

Outra questão que surge como possibilidade diante da crise e impactos ao Rio Grande do Sul é a criação de novos mercados ou o redirecionamento das exportações gaúchas. Porém, Baggio ressalta que a inserção em mercados internacionais exige tempo, construção de confiança e adaptação a exigências específicas.

Além disso, há limites na demanda global, especialmente em setores como proteína animal, em que o Brasil já tem forte presença. Outro entrave está nas exigências técnicas e religiosas de parte da produção voltada ao Oriente Médio, como o abate halal, método que segue preceitos islâmicos e restringe os mercados aptos a receber esses produtos sem ajustes.

“Não é simples redirecionar essas exportações no curto prazo, e isso acaba resultando em perda de mercado e, muitas vezes, de produção”, aponta Baggio.