Quarta, 28 de Outubro de 2026

Do frango aos fertilizantes: como o bloqueio no Estreito de Ormuz pode afetar o RS

Conflito no Oriente Médio encarece insumos e ameaça a produtividade no Estado.

Por: Redação Acontece no RS Fonte: Correio do Povo
18/03/2026 às 09h35
Do frango aos fertilizantes: como o bloqueio no Estreito de Ormuz pode afetar o RS
Dados da Fiergs mostram que 85,6% das exportações gaúchas para o Oriente Médio têm como destino países com portos no Golfo Pérsico Foto : Manoel Petry / Divulgação ABPA / CP

A escalada do conflito no Oriente Médio, iniciada após ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, provoca efeitos diretos sobre a economia do Rio Grande do Sul. A principal preocupação está no bloqueio do Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo e um quinto do comércio global de gás natural liquefeito.

A instabilidade na região, com registros de navios danificados e redução drástica no fluxo de embarcações, causa preocupações logísticas. Isso ocorre porque tanto o que o Estado exporta quanto o que importa depende, em grande parte, dessa rota marítima.

Segundo o economista-chefe do Sistema Fiergs (Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul), Giovani Baggio, o risco à produtividade somado ao aumento nos custos ocorre em um momento já delicado para os produtores gaúchos.

“O custo de produção aumenta no campo, em um cenário em que há produtores já endividados e problemas recorrentes de estiagem. Tudo isso é uma notícia bastante negativa”, afirma.

Como as exportações gaúchas são afetadas

Dados divulgados pela Fiergs indicam que 85,6% das exportações gaúchas para o Oriente Médio, cerca de US$ 1,1 bilhão, têm como destino países com portos no Golfo Pérsico, o que torna o escoamento altamente dependente da passagem pelo Estreito.

Entre os produtos mais expostos estão:

  • Proteína animal (abate de aves): principal item, com US$ 461,9 milhões exportados. O Oriente Médio absorve mais de um terço da produção gaúcha do setor.
  • Produtos à base de café: apresentam a maior dependência proporcional, com 62% das exportações destinadas à região.
  • Grãos: o milho (45,4%) e o trigo (8,9%) têm participação relevante no fluxo comercial.
  • Cadeia da soja: especialmente óleos vegetais e resíduos industriais enviados ao Irã.
  • Tabaco e celulose: com forte presença em mercados como Emirados Árabes Unidos e Iraque.
  • Horticultura: mais da metade das exportações do setor depende da região.

A interrupção ou encarecimento do transporte pode afetar diretamente a competitividade desses produtos, seja por atrasos, seja pelo aumento dos custos logísticos.

Dados da Fiergs sobre exportações do RS Dados da Fiergs sobre exportações do RS | Foto: Fiergs / Divulgação / CP

Dependência nas importações

Nas importações, o Rio Grande do Sul depende do Oriente Médio para insumos estratégicos, especialmente ligados à produção agrícola. Em 2025, o estado importou US$ 743,7 milhões da região, com forte concentração em alguns itens:

  • Matérias-primas para fertilizantes: 36,9% das compras gaúchas desse insumo vêm do Oriente Médio.
  • Adubos e fertilizantes: representam 20,5% do total importado pelo estado.
  • Produtos químicos inorgânicos: 14,9% de dependência.
  • Resinas termoplásticas: 11,1% das importações do setor.

Risco às safras

O economista da entidade afirma que o efeito tende a aparecer primeiro nas culturas de inverno, como trigo, cevada e centeio, cujo plantio começa a ser planejado neste período.

Já as lavouras de verão, como soja, milho e arroz, também podem ser afetadas caso a crise se prolongue, já que a compra de insumos é feita com antecedência.

Baggio ainda chama atenção para a possibilidade de retorno do fenômeno El Niño no segundo semestre, o que pode trazer excesso de chuvas e agravar ainda mais o cenário para uma safra já pressionada pelo aumento dos custos.

Rotas alternativas existem, mas são insuficientes

Rotas alternativas ao Estreito de Ormuz surgem como opção e ajudam a mitigar impactos, mas não são suficientes para resolver o problema, segundo Giovani Baggio. A principal delas passa pela Arábia Saudita, que tem portos no Mar Vermelho.

Ainda assim, mais de 85% do comércio gaúcho com o Oriente Médio tem como destino portos no Golfo Pérsico, o que exige a passagem pelo Estreito. Além disso, o desvio encarece as operações e esbarra em uma logística já estruturada para essa rota, limitando sua adoção no curto prazo.

Redirecionar exportações no curto prazo é desafio

Outra questão que surge como possibilidade diante da crise e impactos ao Rio Grande do Sul é a criação de novos mercados ou o redirecionamento das exportações gaúchas. Porém, Baggio ressalta que a inserção em mercados internacionais exige tempo, construção de confiança e adaptação a exigências específicas.

Além disso, há limites na demanda global, especialmente em setores como proteína animal, em que o Brasil já tem forte presença. Outro entrave está nas exigências técnicas e religiosas de parte da produção voltada ao Oriente Médio, como o abate halal, método que segue preceitos islâmicos e restringe os mercados aptos a receber esses produtos sem ajustes.

“Não é simples redirecionar essas exportações no curto prazo, e isso acaba resultando em perda de mercado e, muitas vezes, de produção”, aponta Baggio.

Impacto nas exportações ainda é muito precoce Foto : ABPA / Divulgação / CP
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