
Poucos rituais são tão enraizados na alma do Rio Grande do Sul quanto a mateada. Mais do que uma bebida, o chimarrão é um símbolo de hospitalidade, de encontro e de identidade. Ele reúne famílias nas tardes frias de inverno, acompanha rodas de conversa nos galpões e abre as portas de qualquer casa gaúcha. Preparar o mate da forma certa não é apenas uma questão de sabor — é uma forma de honrar uma tradição que atravessa gerações.
Se você quer aprender a cebar um chimarrão de verdade, do jeito que se faz nos pagos, este guia vai te acompanhar em cada etapa — da escolha da erva ao primeiro trago quente.
O chimarrão é a bebida oficial do Rio Grande do Sul desde 2003, mas sua história começa muito antes, com os povos indígenas Guaraní que já consumiam a erva-mate em infusões. Os gaúchos herdaram esse costume e o transformaram em um dos pilares da cultura regional, ao lado das danças tradicionais, dos rodeios e dos CTGs que mantêm viva a tradição do Rio Grande. Entender a importância de valorizar a cultura gaúcha é também compreender por que o chimarrão ocupa um lugar tão sagrado no coração do povo sulista.
Na prática, o mate vai muito além do sabor. Ele é o primeiro gesto de acolhida quando chega uma visita, o companheiro das manhãs geladas e o fio condutor de prosas que não têm hora para acabar. Cada cuia passada de mão em mão carrega consigo um pacto silencioso de confiança e respeito.
Antes de começar, certifique-se de ter os itens essenciais. Cada um deles influencia diretamente no resultado final do seu chimarrão:
Cuia de porongo: a cuia natural, feita do fruto da porongueira, é a escolha clássica. Ela mantém a temperatura da água por mais tempo e, com o uso, vai ganhando um sabor característico que os mateadores chamam de “cuia curtida”. Cuias de cerâmica ou vidro térmico também funcionam, mas a de porongo é a mais tradicional.
Bomba de chimarrão: prefira bombas de aço inoxidável com filtro de mola ou colher. A bomba filtra a erva e permite sorver o líquido sem resíduos. Evite bombas de alumínio, pois podem alterar o sabor.
Erva-mate de qualidade: a erva é a protagonista. No Rio Grande do Sul, a preferência é por ervas com moagem fina a média, de sabor suave e cor verde-viva. Marcas gaúchas tradicionais costumam oferecer blends equilibrados, mas cada mateador acaba encontrando a sua favorita com o tempo.
Garrafa térmica com água quente: a temperatura ideal da água fica entre 70°C e 80°C. Nunca use água fervendo, pois ela queima a erva e deixa o mate amargo. A dica clássica é: quando a chaleira começar a “chiar”, está no ponto.
Quem quiser conhecer todos os acessórios que fazem diferença na hora do mate pode conferir nossa matéria especial sobre o Dia do Chimarrão e os itens que fazem diferença na tradição.
Coloque a água para aquecer e fique atento. O ponto ideal é quando começam a surgir pequenas bolhas no fundo da chaleira e um leve chiado se forma — isso indica que a temperatura está entre 70°C e 80°C. Desligue o fogo imediatamente. Água fervente é o erro mais comum de quem está começando: ela escalda a erva, elimina as nuances de sabor e torna o mate excessivamente amargo.
Preencha a cuia até cerca de dois terços da sua capacidade com erva-mate. Em seguida, tampe a boca da cuia com a palma da mão, vire-a de cabeça para baixo e dê algumas batidas leves. Isso faz com que o pó mais fino suba para a superfície (que agora está embaixo), evitando que ele entupa a bomba durante o mate.
Com a cuia ainda levemente inclinada, volte-a à posição normal de forma que a erva fique apoiada em uma das paredes, formando uma espécie de rampa. Na parte mais baixa, onde quase não há erva, é onde você vai encaixar a bomba e despejar a água. Esse detalhe é fundamental: manter a erva seca na parte superior garante que o chimarrão renda mais e preserve o sabor por mais tempo.
Antes de usar a água quente, despeje um pouco de água morna ou em temperatura ambiente na parte mais baixa da cuia, umedecendo apenas a base da erva. Espere cerca de 30 segundos para que a erva absorva o líquido e inche levemente. Essa etapa, que muitos chamam de “primeira água”, prepara a erva para receber a água quente sem choque térmico, protegendo o sabor.
Insira a bomba na parte onde a erva está mais rasa, encostando-a no fundo da cuia. Tampe o bocal da bomba com o polegar antes de introduzi-la, para evitar que entre erva no canudo. Uma vez posicionada, a bomba não deve ser mais mexida. Mover a bomba durante o mate é um dos maiores “pecados” para o gaúcho — além de entupir o filtro, demonstra falta de prática.
Despeje a água quente lentamente na mesma região onde está a bomba, sempre pela lateral mais baixa, sem molhar a parte superior da erva. A primeira cuia é geralmente mais forte e quem ceba costuma tomá-la para si — é o chamado “mate do cebador”. A partir da segunda cuia, o mate já está equilibrado e pronto para ser compartilhado na roda.
A mateada tem suas próprias regras, transmitidas de geração em geração sem nunca precisar de manual. Quem ceba é responsável por preparar e servir o mate para todos na roda, sempre no sentido horário. Cada pessoa toma toda a água até escutar o ronco característico da bomba, devolvendo então a cuia ao cebador para ser reabastecida.
Algumas regras clássicas que vale reforçar: não mexa na bomba quando receber a cuia; não demore demais para tomar o mate (ninguém gosta de esperar); agradecÇa dizendo “obrigado” somente quando não quiser mais mate — dizer “obrigado” antes da hora significa que você está saindo da roda. E, por favor, nunca lave a cuia dos outros sem permissão: cuia de porongo é quase uma extensão do dono.
Mesmo quem já toma mate há anos pode cometer deslizes que comprometem a experiência. O erro mais frequente é usar água fervendo, o que queima a erva e produz um gosto amargo e desagradável. Outro problema comum é encher demais a cuia de erva, o que dificulta a circulação da água e torna o mate entupido já nas primeiras cuias.
Molhar toda a erva de uma vez também é um equívoco: a água deve atingir apenas a parte inferior da cuia para preservar a erva seca no topo, que funciona como uma reserva de sabor. Além disso, usar erva velha ou mal armazenada compromete totalmente o resultado. A erva-mate deve ser guardada em local seco, fresco e protegido da luz.
Além do valor cultural, o chimarrão traz benefícios reconhecidos pela ciência. A erva-mate é rica em antioxidantes, vitaminas do complexo B, potássio e magnésio. Estudos indicam que o consumo regular pode auxiliar na digestão, contribuir para o controle do colesterol e fornecer um estímulo energético mais equilibrado que o café, graças à combinação de cafeína com teobromina.
A mateína presente na erva promove um estado de alerta suave e prolongado, sem os picos e quedas típicos do café. Para o gaúcho que começa o dia cedo no campo ou que precisa de disposição nas noites frias, o chimarrão é um aliado natural e acessível.
Preparar um chimarrão bem feito é um ato de cuidado. Cuidado com a tradição, com quem vai dividir a roda e consigo mesmo. Em cada cuia servida está um pedaço do Rio Grande do Sul: a paisagem dos campos, o calor do fogão a lenha, o silêncio respeitoso de uma manhã de inverno.
Se você está começando agora, não se cobre perfeição. O chimarrão é um aprendizado que melhora a cada cuia. Siga os passos, respeite a temperatura da água, encontre a erva que mais agrada o seu paladar e, principalmente, compartilhe. Porque chimarrão bom é chimarrão dividido.
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