
Após sucesso na TV em “Paulo, O Apóstolo” (Record), o ator gaúcho Lucas Tors encara um novo desafio ao dar vida a um dos protagonistas do filme “De Volta Pra Casa”. Ele interpreta Yago, um jovem que guarda um segredo a sete chaves e está imerso em vários conflitos com o irmão mais novo, Yan, vivido por Lucas Amorim (um dos idealizadores do projeto, ao lado de Duda Vedoi). Ambos precisam lidar com as dores de terem sido abandonados pelo pai, interpretado por Marcelo Campos. Ele atravessa um dos momentos mais transformadores de sua carreira e, ao mesmo tempo, o mais íntimo também. Com descendência libanesa, é um artista de múltiplos talentos. Além de atuar, é cantor, pianista e fala fluentemente quatro idiomas: árabe, português, inglês e espanhol. No filme brasileiro Metástase, além de protagonista, Tors é idealizador e produtor do terror psicológico, que explora os efeitos devastadores das relações abusivas.
Meu começo foi nos palcos do Teatro Municipal de Santana do Livramento. A paixão por atuar era tamanha que eu, viciado em Os Feiticeiros de Waverly Place, criava varinhas de papel com pedras coloridas nas pontas para imitar as cenas do seriado em frente ao espelho. Desde que me entendo por Lucas, me entendo ator.
Quando entrei para o teatro, aos 8 anos de idade, me deparei com dificuldades: eu me recusava a maquiar para entrar em cena, recusava usar legging para interpretar tal personagem, tinha vergonha do meu corpo e era muito bloqueado até para falar alto no palco. Esses bloqueios foram se desenvolvendo ao longo das peças que protagonizei e, junto do teatro, eu ainda era pianista.
Todos os finais de ano, eu me apresentava na prefeitura da cidade e sempre creditei ao piano o fato de ele ter me ensinado a usar meu corpo para impulsionar minhas expressões dentro de qualquer área da arte. Ao longo da minha formação na escola, cheguei a produzir três curtas-metragens, sendo um deles uma paródia musical. Dentre esses curtas, um foi premiado como melhor filme do Festival Binacional da Fronteira com o Uruguai, e eu fui premiado como melhor ator. Esse movimento aconteceu aos meus 16 anos, quando morava nos Estados Unidos e pude acompanhar a entrega dos prêmios por videochamada.
Lembro de ter uma epifania, um insight fortíssimo, enquanto estava na aula de Environmental Care e, com todo respeito ao professor, eu não estava nada interessado no assunto. Minha cabeça só conseguia pensar em como eu estava sendo reconhecido como ator, e aquilo só provava o potencial que eu tinha.
Até então, eu não havia decretado que iria seguir a arte. Passei por desejos de ser arqueólogo, tradutor, psicólogo, psiquiatra, delegado e diplomata. A arte sempre foi tratada como algo que não me sustentaria financeiramente e, por um bom tempo, acreditei nisso a ponto de quase desistir.
Então, em janeiro de 2020, eu voltei para o Brasil, basicamente duas ou três semanas antes de a pandemia aprisionar todo mundo em suas casas. Dada a experiência de isolamento, comecei a gravar dublagens e historinhas para o TikTok, até que comecei a dar uma viralizada. Cheguei a acumular mais de 13 mil seguidores e 200 mil curtidas, mas aquilo não me tocava de uma forma bonita; eu não me sentia artista fazendo aquilo. Talvez tenha me ajudado a perder a vergonha da câmera e me ensinado bastante sobre autoestima, mas não me motivou a ponto de eu seguir fazendo vídeos. Eu queria mesmo era estar dentro de um set de filmagem de 12 horas, queria ter um personagem denso, com camadas, uma trama para poder contar.
Lembro de ter feito algumas aulas online de monólogo com um professor do Rio, mas me sentia muito pressionado. Era como se ele esperasse que eu, um garoto nada desenvolvido, que ainda morava no Interior, soubesse todas as técnicas de atuação que o mercado pedia (risos). Eu não sabia de nada; eu só queria aprender. Acabei nem terminando o pacote de aulas. Lembro que, em um sonho, me vi na capa de uma série da Netflix e, a partir daquele dia, algo dentro de mim se acalmou e pensou: “o que é teu tá guardado, calma”. No final de 2020, pós ensino médio, entrei para Psicologia em Santa Maria, mas, por causa da pandemia, as aulas ainda eram online. Eu gostava do curso, mas, no fundo, era só até eu conseguir me mudar para o Rio de Janeiro e estudar cinema.
A chave virou quando eu decretei que seria um grande ator, e não apenas alguém apaixonado por cinema. Essa decisão de atuar só me levava a dois lugares: Rio de Janeiro ou São Paulo. Esses eram os dois principais eixos que eu enxergava como possibilidade de ser visto e reconhecido. A decisão foi muito fácil, na verdade, pois eu já vinha de uma viagem de seis meses longe da família; basicamente, eu estava sendo preparado pra viver longe deles antes mesmo de pensar em me mudar para o Rio. É incrível como a espiritualidade age ao nosso favor. Um mês antes de eu decidir “virar carioca”, aconteceu uma tragédia com um conhecido na fronteira, e eu, com 18 anos, tive que acompanhá-lo de ônibus até o Rio. Ao todo, foram 32 horas sentado naquele ônibus e, até então, ninguém sabia que eu estava secretamente planejando toda a minha mudança.
Eu teria cinco dias no Rio antes de voltar pro Sul, então aproveitei ao máximo pra sondar os bairros e entender qual seria o melhor ponto pra morar, onde ficava a escola de atuação que eu faria e por onde passava o metrô. Voltei pra fronteira no dia 5 de maio e, no dia 10 de junho de 2021, um mês depois, eu estava chegando ao Rio com minhas malas cheias, pronto pra começar minha jornada artística.
Meus amigos dão risada, dizendo que eu faço um tour pelo Rio de Janeiro, pois já morei em mais de quatro bairros da cidade: Copacabana, Barra da Tijuca, Tijuca e Vila Isabel. E já penso em me mudar de novo. Sinto saudade dos meus melhores amigos, daqueles que me conhecem em todas as fases, desde antes do Lucas se consolidar como artista. Aqueles que conhecem todos os meus trejeitos e me amam exatamente do jeito que sou e do jeito que venho me tornando. As verdadeiras almas gêmeas, pra mim, são aquelas que te acompanham desde a infância e torcem pelo teu sucesso sem um pingo de inveja nem malícia. É desse grupo de amigos que eu sinto falta. E, sempre que volto ao Sul, é um evento mágico nossos reencontros.
Essa pergunta me emocionou bastante; tocou em lembranças lindas que me causam nostalgia. Eu nasci e cresci na fronteira com o Uruguai, mas, a cada dois anos, eu ia com minha mãe para o Líbano, por três meses, pra visitar os familiares. Então, minha infância foi bem dividida entre o Rio Grande do Sul e o Líbano. Meus maiores prazeres eram ir para a chácara dos meus pais, no meio do mato, aos domingos. Era lá que minha criatividade aflorava: eu conversava com todo tipo de folha, pegava joaninhas, competia com meus primos para ver quem criava o prato de folhas mais bonito. A chácara é o meu maior ponto de nostalgia quando se fala em infância na fronteira. Voltávamos para o Centro da cidade na garupa da Kombi do meu pai. Para mim, era o maior evento enxergar toda a cidade pela traseira do automóvel. Eu, com meus 5 ou 6 anos, achava que era cidade grande: tudo, para mim, era longe demais, cada quarteirão era uma eternidade, tudo era grandioso (e a chacrinha não passava de 15min de casa).
Lembro de me considerar muito libanês e entrar em conflito interno quando chegava a época da Semana Farroupilha. Todos os meus colegas iam com as vestimentas gaúchas, sempre com o chimarrão debaixo do braço, e aquele Lucas de 12 ou 13 anos nunca entendeu muito bem onde ele se encaixava naquela história. Meus ancestrais não eram dessas terras, e as histórias que eu cresci ouvindo eram todas em solo libanês.
Mas, com o tempo - e com a ajuda da minha mãe, que é nascida e criada no Líbano, mas tem uma paixão absurda pelo Sul - fui criando um carinho por essas terras e, aos poucos, comecei a valorizar o famoso momento de “lagartear no sol tomando um chimas e comendo uma bergamota”. Tem também o sotaque, que tive que neutralizar pra trabalhar no audiovisual e que é algo que eu largo os bois quando volto para cá, pro Sul: as gírias voltam naturalmente e com mais força. É como se, no Rio, eu fosse uma pessoa, e, no Sul, eu fosse outra - e eu amo essas duas versões, sem problema nenhum. No futebol, eu cresci sendo colorado. Apesar de não ter uma conexão forte com o esporte, por sempre gostar mais de handebol e tênis, eu sempre gostei do Inter, talvez pela cor vermelha, que é uma das minhas preferidas.
É uma sensação misteriosa. Ainda estou entendendo, mas é como se eu estivesse vivendo esse momento duas vezes — a primeira na minha imaginação, há anos, e agora na realidade palpável da matéria. Tenho um sentimento enorme de alegria por ser reconhecido e congratulado pela Câmara de Vereadores da cidade e, ao mesmo tempo, me pego pensando: quando foi que tudo isso aconteceu? É lindo como minha trajetória tem se desenvolvido, e pretendo contribuir com o que eu puder para a minha cidade crescer artisticamente, mais e mais, sempre.
Foi uma experiência leve e alegre. Sabe aqueles projetos que te exigem apenas fé e amor? Foi basicamente isso. Diferente de qualquer outro personagem que eu fiz, que quase sempre tinha uma carga dramática pesada.
De fato, minha espiritualidade foi muito tocada com esse trabalho. Ele me atravessou profundamente, principalmente porque tive o prazer de fazer um monólogo em uma das cenas e, inclusive, orar em árabe. A cena em que o discípulo Erasto recebe o Espírito Santo pela primeira vez mexeu comigo, porque cresci numa família católica e, em uma dessas vigílias da igreja, eu, com meus 14 ou 15 anos, repousei no Espírito Santo e ali tive meu primeiro contato com esse sentimento de plenitude. É como dizem: a arte imita a vida. E ali eu tive a grande honra de viver Erasto, um discípulo que percebeu as atrocidades do sistema da época e quis mudar alguma coisa. Minha espiritualidade hoje é abrangente: simpatizo com inúmeros sentimentos e me considero uma pessoa extremamente aberta e ligada ao “outro lado”.
A confiança de que, depois de todo caos, vem a plenitude. Esse sentimento íntimo de que tudo acontece exatamente como deve ser, de que eu estou exatamente onde deveria estar - é isso que me conecta ao Erasto. É a fé inabalável, seja no que for. Quando me proponho a fazer qualquer coisa, vira uma missão pessoal.
O Rio Grande do Sul me ensinou muito sobre a importância do coletivo e a necessidade da individualidade. Porque, por mais que tenhamos na nossa cultura gaúcha essa vontade de juntar a galera - seja numa roda de chimarrão, seja num churrasco de domingo - também existe essa parcela de individualidade, que é respeitada em conjunto. Todos precisamos de um tempo sozinhos, e a gentileza de cada um em respeitar isso é cultural. Um pouco diferente do Rio, que é mais do coletivo e menos da individualidade. Mas cada lugar tem seu gostinho especial, e eu amo os dois estados.
Meus pais, Jose Tors e Laurence Tors, que sem eles eu nem sei o que seria de mim, pois me ensinaram tudo que eu precisava pra viver e sobreviver na sociedade. E do meu grupo de amigos fiéis, que eu chamo de almas gêmeas: a jornalista Eduarda Medina, meu primo, o médico Jonatan Tors, a engenheira Helena Galanos e minha protetora Fernanda Serpa.