Segunda, 16 de Maio de 2022
Polícia Nova Prata / RS

Policial militar estaria em grupo que linchou homem em praça de Nova Prata

Polícia Civil pretende finalizar o inquérito sobre o assassinato de lixador de mármore até a sexta-feira (27).

25/11/2020 às 09h45
Por: Redação Acontece no RS Fonte: Pioneiro - Grupo RBS
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O lixador de mármore Arlindo Elias Pagnoncelli morreu dias depois das agressões Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
O lixador de mármore Arlindo Elias Pagnoncelli morreu dias depois das agressões Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Um policial militar foi identificado como um dos participantes do linchamento que resultou na morte de um lixador de mármore em uma praça de Nova Prata. Investigadores da Polícia Civil foram até Caxias do Sul para ouvir o suspeito na manhã desta terça-feira (24), mas o brigadiano alegou não poder comparecer e deverá ser ouvido na próxima sexta-feira (27). O inquérito policial busca identificar mais de 40 pessoas que participaram ou testemunharam do espancamento de Arlindo Elias Pagnoncelli, 38 anos, conhecido como Zinho, na noite de 8 de novembro.

Segundo relatos à polícia e os gritos que são ouvidos em vídeos do linchamento, a confusão aconteceu porque Pagnoncelli teria importunado sexualmente duas moças por meio de contato físico. O brigadiano, que trabalha em Caxias do Sul, estava em Nova Prata para acompanhar uma mulher com quem tem relacionamento. Essa mulher é parente das moças que alegam terem sido importunadas.

— Ele foi identificado pelas imagens e testemunhas. Ele foi um dos que agrediu (a vítima) a socos. Aparentemente, estava em horário de folga e acompanhava esta família das moças, que são sobrinha e cunhada deste relacionamento dele — diz a delegada Liliane Pasternak Kramm.

As duas moças são vistas passando pelo lixador de mármore e um amigo dele em uma faixa de segurança. A cena foi capturada por uma câmera do monitoramento eletrônico da cidade, que é distante e opera em movimento automático. Nas imagens, não é possível confirmar qualquer contato físico entre Pagnoncelli e as moças.

A família das moças e o lixador de mármore chegaram à praça ao entardecer, antes das 17h. Como a maioria dos frequentadores do local, eles consumiram  bebidas alcoólicas. O encontro entre eles foi às 19h40min. O linchamento, contudo, só aconteceu próximo das 22h.

— Não há imagem do toque, se é que o toque existiu. E é importante pontuar esta dúvida. É possível esperar duas horas e 20 minutos para o revide? Na hora (da suposta importunação sexual) não houve desavença (entre os envolvidos) — relata a delegada.

Praça central possui histórico de bebedeiras e tumultos

O tumulto aconteceu na praça da avenida Fernando Luzatto, no centro da cidade, quase em frente à prefeitura, local que historicamente é conhecido como um ponto de encontro noturno e, consequentemente, palco de badernas, segundo a Brigada Militar (BM). O linchamento foi filmado por diversas testemunhas. As imagens mostram Pagnoncelli sendo agredido com socos e chutes por diversas pessoas. Mesmo caído e desacordado, a vítima continuou a ser espancada.

Pagnoncelli  era solteiro e trabalhava como lixador de mármore em uma mineradora havia 20 anos. Ele foi socorrido e encaminhado para um hospital de Vacaria, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu no dia 17 de novembro.

O caso chamou atenção pela brutalidade e a quantidade de agressores envolvidos. Dezenas de pessoas testemunharam e até filmaram a confusão. As imagens mostram que poucos tentaram acalmar os ânimos e, ainda assim, o lixado é repetidamente agredido.

— Com a flexibilização das medidas de restrições da covid-19, o pessoal está saindo mais e, em Nova Prata, aquela praça tem histórico de ser um ponto de encontro, com vários bares e restaurantes próximos, o que resulta nestas aglomerações (na via pública). (Sobre badernas), Nova Prata não tem uma anormalidade e nem histórico de espancamentos. Foi um fato isolado. Só que realmente foi um número muito grande de agressores. Quando a guarnição chegou, ele já estava desacordado e ainda assim os PMs tiveram que fazer a dispersão — aponta o capitão Rogério Schuh, comandante da 2ª Companhia do 3º Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (3º BPAT).

A Polícia Civil já colheu mais de 40 depoimentos sobre a confusão, sendo que os principais envolvidos prestaram três depoimentos cada. Contudo, a delegada Liliane Pasternak Kramm aponta que há muitas contradições nos relatos, o que atrasa o trabalho policial. Pelo menos 12 agressores já foram identificados.

— Estamos trabalhando na individualização de condutas, alguns suspeitos serão indiciados por lesão corporal e outros por homicídio qualificado.

Dois dias depois da morte de Pagnoncelli, um outro caso de espancamento em local público aconteceu em Porto Alegre e teve repercussão nacional. João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, foi assassinado na porta de uma loja do supermercado Carrefour.

Os casos se assemelham pela desproporção das agressões, pelos vídeos feitos por testemunhas que foram espalhados por redes sociais e, agora, pela participação de um policial militar em horário de folga. Apesar de ser ainda mais violenta, a morte de Pagnoncelli não teve a mesma repercussão por ocorrer em um local considerado "propício" para tumulto: um ponto de encontro noturno de jovens para consumo de bebidas alcoólicas e drogas ilícitas.

— Infelizmente, onde há a ingestão de bebida alcoólica e outros entopercentes, acontece esta contaminação de ânimos. Uns indivíduos impulsionam (um ataque), outros vão no embalo, e todos agridem a pessoa. Ali, havia vários conhecidos, amigos, pois é uma cidade de médio porte. Só que acontece este auxílio inoportuno (de quem não estava envolvido na desavença) e se avolumam estas agressões, virando um linchamento coletivo. É a mistura do álcool com a violência. (Em Porto Alegre,) foram dois seguranças e, aqui, foram mais de 40 pessoas. Foi muito desproporcional. Mas, são nítidos os excessos nos dois casos — avalia o capitão Rogério Schuh.

A delegada Liliane pontua outra diferença fundamental entre os casos. No supermercado da capital, os autores foram agentes de segurança que não tiveram o preparo e a técnica necessária para a devida imobilização. Na praça de Nova Prata, a brutalidade coletiva foi movida por bebida alcoólica e o sentimento de "justiça com as próprias mãos".

— Aqui foi uma histeria, um açodamento das pessoas de fazer justiça com as próprias mãos, independente de se assegurar que aquela pessoa era de fato acusada daquele fato. E, mesmo que fosse cometedor de uma conduta inconveniente, a população não pode partir para o uso de força. Sempre será errado. A morte não é justiça. As pessoas podem estar sedentas por rigidez nas leis, mas isto não pode ser manipulado pelo cidadão dependendo do que este entende por merecer para o malfeitor. A lei não autoriza e, por isso, todos serão responsabilizados.

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