
Quanto mais discreto ele passar no jogo, melhor para o árbitro e para o jogo em si. Mas não houve discrição alguma na arbitragem de Gilberto Nahas, no clássico entre Avaí e Figueirense de 1971.
Em 1 de abril, o juiz distribuiu 22 cartões vermelhos, durante uma briga em campo, que ocorreu nos primeiros minutos da segunda parte. O jogo terminou com 22 expulsos e assim ganhou o título de “clássico da vergonha”, continuando a gerar conversas entre torcedores dos dois times.
Supostamente um amistoso, aquele jogo entre Avaí e Figueirense disputado em dia de mentira tinha como finalidade homenagear a ditadura militar e relembrar os eventos de 31 de março de 1964, que deram origem ao golpe militar de 1 de abril do mesmo ano e precipitaram o fim do governo democrático de João Goulart.
Os militares quiseram tirar proveito da popularidade do futebol, misturando esporte com política. E os dirigentes do Avaí e do Figueirense colocaram o olho no cachê que receberiam por participarem nesse amistoso. Estavam reunidas as condições para um evento perfeito, não fosse o árbitro apostar tudo no vermelho e determinar o fim precoce do encontro. Na Blaze Aposta é possível fazer a sua aposta no numero de cartões vermelhos uma alternativa é a Betano tem uma lista interminável para apostas. Por exemplo, o total de cartões vermelhos em um jogo, a próxima equipe a obter um cartão vermelho. Um mercado infindável de apostas que você pode conferir na Betano.
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Nem o fato de os comandantes de Santa Catarina, do governador, do prefeito estarem na tribuna de honra travou o ímpeto dos jogadores de Figueirense e Avaí. Relatos históricos dão conta de xingamentos e agressões entre avaianos e figueirenses.
Valeu tudo. Até mesmo usar a bandeirinha de escanteio para agredir o adversário. Todos os jogadores terão participado desse episódio, com exceção dos dois guarda-redes, segundo relato do historiador Felipe Matos.
As agressões mútuas ocorreram nos primeiros minutos da segunda parte, já depois de algumas picardias entre os jogadores. E no meio do caos Gilberto Nahas pegou no cartão vermelho e o exibiu a todos os jogadores. Foram 22 expulsos em uma única partida.
Os torcedores deixaram o estádio e retornaram para casa, desiludidos e surpreendidos com aquela rara decisão. Avaí e Figueirense terão recebido apenas metade do cachê combinado.
186.º clássico entre Avaí e Figueirense Data: 1º de abril de 1971 Local: Estádio Adolfo Konder, em Florianópolis Árbitro: Gilberto Nahas Expulsões: 22 Resultado final: 0 a 0
Existe muita contrainformação sobre esse jogo. Ou episódios da história que acabaram sendo desmentidos. Um deles está relacionado com os efeitos da decisão de Gilberto Nahas em mostrar cartão vermelho a todos os jogadores do Avaí e do Figueirense. Surgiram rumores de que ele foi preso nesse dia e passou uma noite na cela. Essa versão, no entanto, foi desmentida pelo historiador Felipe Matos. Há até versões exageradas de que Nahas teria passado uma semana na cadeia. O árbitro, que era considerado o melhor daquela época, foi pressionado por militares a reverter a decisão, de modo a que o jogo pudesse ser retomado. Mas recusou, fazendo prevalecer as leis do jogo. Ele argumentou que no gramado prevalecem as regras da FIFA. E nem o fato de estar em causa uma homenagem à ditadura militar o convenceu a anular as expulsões. Os militares mandavam no país, mas no gramado foi o árbitro que ditou as leis.
A represália que Gilberto Nahas sofreu foi ser impedido de “baixar à terra”. O árbitro também era sargento da Marinha e essa era a expressão utilizada para o regresso a casa. Gilberto Nahas não pôde voltar a casa nessa noite, mas será falso que tenha dormido numa cela.
O árbitro não se arrependeu de expulsar 22 jogadores naquele dia. Na verdade, ele nunca se arrependeu, em toda sua vida. Em 2008, em uma entrevista ao jornal Hora de Santa Catarina concedida dois anos antes de morrer, foi extremamente claro: “Não tinha o que fazer”, explica. Ao mesmo tempo, recordou a forma como mostrou os cartões vermelhos para todos os elementos das equipas do Avaí e do Figueirense. “Eu peguei o cartão vermelho, girei no ar para todos os lados e disse ‘tá todo mundo expulso’”, lembra, citado pelo UOL.
Este jogo histórico entre Avaí e Figueirense (link to: https://ocp.news/esporte/confira-os-numeros-na-historia-de-avai-x-figueirense-o-classico-de-florianopolis ) está gravado na memória de quem o viveu e está atualmente bem documentado. Porém, a imprensa da época deu pouco eco aos incidentes em campo. A razão certamente está relacionada ao fato de o “clássico da vergonha”, como seria apelidado, ser um evento de propaganda do regime.
Com todos os jogadores expulsos nesse jogo, Avaí e Figueirense teriam repercussões disciplinares, já que não teriam atletas para a partida seguinte, relativa ao campeonato estadual de 1964. Porém, os times de Florianópolis encontraram uma forma de contornar essa regra. Uma vez que o árbitro não exibiu o cartão individualmente, nem escreveu na súmula os nomes dos jogadores que viram o cartão vermelho, os clubes se livraram dessa punição. As expulsões acabaram sendo anuladas porque o árbitro escreveu na súmula apenas “todos os jogadores foram expulsos”, o que levou a justiça desportiva a aceitar as reclamações de Figueirense e Avaí.
O árbitro que foi um corajoso protagonista do clássico entre Avaí e Figueirense morreu em 6 de julho de 2010, vítima de doença oncológica. Gilberto Pedro Hoffman Nahas, que contava 81 anos, era presidente da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, na seção de Santa Catarina, e liderava ainda a Associação Catarinense de Imprensa. Além de árbitro, ele foi jornalista.
A data exata do “clássico da vergonha” não gera consenso. Em diversas publicações é apontada como 1 de abril, mas também há textos que apontam a data 31 de março de 1971 como a correta. Com efeito, qualquer das duas datas fará sentido. Sendo essa partida uma homenagem ao golpe militar de 1964, ele teve em 31 de março e 1 de abril seus principais eventos. Independente da data exata, esse clássico entre Avaí e Figueirense foi aquele que registrou mais expulsões. Mas há outros jogos que tiveram todos os jogadores expulsos.
Em 3 de novembro de 1969, num torneio realizado na Inglaterra, a partida entre Tongham Youth Club e Hawley chegou ao fim antes da hora, porque ocorreu um episódio semelhante ao clássico de Florianópolis. E antes, em 1954, o Brasil conheceu seu primeiro jogo com todos os jogadores vendo cartão vermelho. Num torneio em 1954, no gramado do estádio do Pacaembu, todos os jogadores da Portuguesa de Desportos e do Botafogo foram expulsos. Entre eles estava Garrincha, o Anjo das Pernas Tortas. Foi um fecho diabólico do Torneio Rio-São Paulo.