Segunda, 10 de Agosto de 2020
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Saúde Governo do Estado

Aliados divergem de estratégia do governo para conter pandemia

Base não tem movimento coordenado em defesa da aplicação de medidas de distanciamento.

06/07/2020 16h49
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Por: Redação Acontece no RS Fonte: Correio do Povo
Eduardo Leite em uma das videoconferências sobre o Distanciamento Social | Foto: Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini/CP
Eduardo Leite em uma das videoconferências sobre o Distanciamento Social | Foto: Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini/CP

Partem de dentro, mais do que de fora do governo, as resistências e oposições que pressionam o governador Eduardo Leite (PSDB) em sua política de enfrentamento ao coronavírus e, em particular, o modelo de Distanciamento Controlado implementado pela administração tucana. A tal ponto que a situação do RS, nestas semanas mais “difíceis” da disseminação da pandemia, é descrita por políticos experientes como uma versão ‘suave’ do que a população já assiste a nível nacional. Uma sobreposição de práticas e discursos antagônicos que confundem a sociedade.

Enquanto Leite voltou a solicitar que a população adote um isolamento maior e as rodadas recentes do Distanciamento Controlado evidenciaram a piora do quadro do Estado, parte de deputados, prefeitos, vereadores e lideranças políticas e econômicas que compõem seu contingente de apoio silencia ou se manifesta em sentido contrário. Na prática, não existe um movimento coordenado do bloco político que forma o governo a trabalhar a favor da manutenção do isolamento ou de medidas que restrinjam atividades como modo de minimizar situações de exposição a doença. Entre correligionários, deputados e prefeitos dos maiores partidos governistas, como MDB, PP e PTB, ou mesmo o PSDB e o PSB, via de regra, alternam três posturas: ouvem calados as reclamações de fatias do eleitorado e setores empresariais que são contra o distanciamento; prometem se empenhar junto ao governo para diminuir as restrições; ou criticam abertamente a manutenção das regras de fechamento.

A postura em prol da abertura é patente no MDB, o maior partido da base no Legislativo. “O governador devia usar as bandeiras como alerta a população, fazer chamadas maciças na imprensa para permitir todos os cuidados. Agora, trabalhar com paredes proibitivas a partir disso, na minha visão, é um pouco de autoritarismo. Todo mundo já sabe que tem que usar máscara, que precisa fazer assepsia das mãos. Essa determinação de que pode uma coisa, mas não pode outra, não resolve o problema”, argumenta o presidente do MDB/RS, deputado federal Alceu Moreira.

O presidente da Comissão de Economia da Assembleia, deputado Sebastião Melo (MDB), também tece críticas ao modelo. “O governador e os prefeitos fecham, mas dificilmente abrem a possibilidade para que os que fecham não morram de fome. O tempo é que vai nos dizer se onde as políticas contra o coronavírus tiveram mais sucesso isto aconteceu devido ao isolamento ou em função dos protocolos adotados”, diz. Mesmo com o Legislativo operando em regime virtual, Melo fez questão de presidir as audiências da comissão da Assembleia, adotando o isolamento após testar positivo para o coronavírus, no final de junho.

“Bandeira vermelha na Serra. (...) Temos até domingo para demonstrar, com números, que a região pode permanecer na bandeira laranja. Prefeituras e comunidades estão fazendo as suas partes” postou no twitter, na noite de sexta, outro emedebista, o deputado Carlos Búrigo, após a região de Caxias do Sul receber pela terceira vez a bandeira vermelha, ter contestado a classificação em duas das semanas anteriores (com sucesso em uma), e partir agora para a terceira confrontação. Mesmo com a deterioração evidente de seus indicadores, e da detecção de surtos em empresas e estruturas públicas que assustaram a população, o movimento segue intenso nas ruas das principais cidades, como Caxias.

A postura de não adesão à estratégia de intensificar o distanciamento não é exclusiva do MDB. No PP, sigla do chefe da Casa Civil, do presidente e do líder do governo na Assembleia, as manifestações também seguem a linha da flexibilização e da ‘defesa da economia’. “Precisamos começar a analisar o que está ocorrendo do ponto de vista da economia. A alternativa é assumir um pouco mais de risco com todos, arrochar nos protocolos e fiscalizações e aumentar as campanhas com os grupos de risco, esses sim devem ter mais restrições” elenca o líder da bancada do PP na Assembleia, deputado Sérgio Turra. A manifestação tem pontos em comum com posturas externadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e com manifestos públicos divulgados por entidades empresariais.

Confrontações se repetem entre prefeitos aliados

No comando das prefeituras, partidários de siglas da base reverberam as posições externadas por deputados, de não alinhamento ou oposição à estratégia do Executivo. Leite e o Distanciamento Controlado já receberam críticas duras de prefeitos como os de Uruguaiana, Ronnie Mello (PP) e de São Gabriel, Rossano Gonçalves (PL). Ou o de Vacaria, Amadeu Boeira, que é do PSDB. Ele tentou reverter judicialmente a bandeira vermelha.

Na Fronteira Oeste parte dos prefeitos ensaiou uma rebelião contra o modelo. Na Serra, o prefeito de Garibaldi, Antônio Cettolin (MDB), chegou a obter liminar para cancelar a bandeira vermelha, revertida pelo presidente do Tribunal de Justiça (TJ). Foi a partir da decisão do TJ, e de uma ofensiva desencadeada pelo Ministério Público, que vários gestores municipais de siglas aliadas que descumpriam regras do Distanciamento Controlado recuaram de ações mais ostensivas.

Mas, na prática, as contestações e a estratégia de driblar regras e ignorar descumprimentos são parte da realidade nos municípios. Na Serra, os prefeitos de Caxias do Sul, Flávio Cassina (PTB), e de Bento Gonçalves, Guilherme Pasin (PP), adotam tom mais ameno, mas em prol da manutenção da abertura de estabelecimentos e da restrição pontual da circulação. O mesmo ocorre com Canoas, comandada pelo petebista Luis Carlos Busato. Sem enfrentamento explícito à administração estadual, a cidade foi, por exemplo, uma das primeiras a permitir, na metade de abril, a reabertura de academias mediante protocolos específicos. Há 15 dias, a região de Canoas pediu reconsideração da bandeira vermelha. Não conseguiu. O pouco apreço ao distanciamento seguiu evidente nas ruas e a situação se agravou. Na última sexta, a prefeitura de Canoas anunciou a suspensão de novas internações em suas UTIs.

A surpresa em relação ao apoio às políticas para evitar situações de contágio acabou vindo da oposição. No sábado pela manhã, após a região de Rio Grande receber bandeira vermelha na última rodada do Distanciamento Controlado, o prefeito da cidade de Rio Grande, Alexandre Lindenmeyer (PT), anunciou em live nas redes sociais que o município, ao invés de questionar o Executivo estadual, vai intensificar as restrições, implementando, a partir desta segunda, a bandeira preta, como forma de conter a disseminação do coronavírus.

Porque a população resiste às restrições de circulação 

A posição de lideranças de legendas aliadas não responde, sozinha, pelas dificuldades em relação a manutenção de um distanciamento mais rigoroso neste mês de julho. O próprio governador Eduardo Leite (PSDB) alternou seu discurso em diferentes momentos. No início, em março, incorporou o jargão ‘fique em casa’. Depois, ao longo de parte de abril, maio, e um pedaço de junho, quando uma certa euforia tomou conta do Estado, baseada na crença de que a pandemia poderia não atingir com mais força os gaúchos, Leite também relaxou o discurso sobre o isolamento.

E flexibilizou sucessivamente o modelo de Distanciamento Controlado. Uma ferramenta que, para parte de matemáticos, epidemiologistas e estatísticos, já nasceu ‘elástica’, porque, ao priorizar indicadores de leitos e internações ao invés de testes e número de casos positivos, detecta o descontrole da doença não na fase inicial, a da transmissão, e sim na final, quando há a saturação das estruturas de saúde. Não por acaso, o Executivo “corre atrás do prejuízo”, nas palavras de um deputado aliado. Na quinta, 2, Leite prometeu aumento das testagens e a utilização, mesmo que tardia (a partir de agosto), de um aplicativo para rastreamento de contatos.

Para além das alianças de ocasião e das flexibilizações no discurso e no modelo, outros dois fatores, conforme lideranças e analistas políticos, dificultam a nova adesão da população a medidas mais restritivas de circulação. Um foi pontual, mas teve efeito duradouro sobre a credibilidade do modelo estadual. Foi quando, no final de semana de 20 de junho, após a região Metropolitana obter bandeira vermelha naquela rodada do Distanciamento Controlado, o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior, anunciou que a Capital manteria práticas não permitidas pela classificação da bandeira vermelha.

O Executivo gaúcho se movimentou com rapidez, e conseguiu evitar que o princípio de crise desencadeado pelo discurso desconexo entre os dois expoentes da nova geração do PSDB do RS afundasse o Distanciamento Controlado. Na segunda-feira seguinte, Marchezan participou da live do governador, e ambos reafirmaram sua consonância. Na sequência, o prefeito acabou por anunciar medidas mais restritivas que as determinadas no modelo estadual. Os questionamentos sobre o quanto os critérios políticos influenciam o modelo científico, contudo, se solidificaram.

E, com eles, avaliações que atribuem a postura de negociação constante do governador a “falta de pulso”, um entendimento que resume o segundo fator destacado por quem analisa os desdobramentos políticos da estratégia do governo. “É importante que se diga que os modelos que vem sendo adotados, não apenas no RS, mas em outras cidades e estados, foram criados a partir de determinados comportamentos que, no Brasil, na prática, não se confirmam. A imagem das pessoas com a máscara no queixo resume o nosso padrão. Ele é o de não cumprimento de regras, ou o de cumprimento apenas ‘em público’, e de não aceitação de autoridade”, assinala o professor do Departamento de Ciência Política da Ufrgs, Rodrigo González.

Segundo González, dentro desta cultura, quando uma parte abre margem para negociação, a resposta, não raro, é altamente individualista. Ao invés de comemorar a disposição para o diálogo e chegar a um bom termo para todas as partes, a tendência de quem está do outro lado da mesa é intensificar a pressão no sentido de obter ainda mais concessões.

“Este componente cultural é um agravante no nosso caso. Que piora com a inexistência de uma autoridade nacional que de fato coordene o processo de enfrentamento à doença. Aqui no RS, além disso, talvez o erro também tenha sido cair em um certo otimismo sobre a evolução da pandemia. Mas é difícil para o decisor avaliar isso no momento em que ocorre. É bem mais fácil entender depois, como está acontecendo agora.”

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