Quinta, 30 de Julho de 2026
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'Não sou corajosa, só tentei ser forte', diz afegã que deixou o país

Zhara Joya criou site que aborda a realidade das mulheres do Afeganistão e denuncia a violação de direitos pelo Talibã

Por: Redação Acontece no RS Fonte: R7 - Letícia Sepúlveda, do R7
06/10/2021 às 02h05

Quando o Talibã retomou o controle de Cabul, capital do Afeganistão, a jornalista Zhara Joya, de 29 anos, decidiu deixar o país o mais rápido possível. Em governos extremistas, as mulheres enfrentam diversas violações de direitos, e essa realidade só se agrava para aquelas que tentam denunciar os horrores do regime em que estão submetidas. 

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"Eu estava em Cabul quando o Talibã tomou a cidade, não podia sair de casa depois disso. Eles não respeitam os direitos humanos, principalmente os direitos das mulheres. Elas não podem ir ao trabalho e estão privadas do direito à educação. Foi horrível porque todas ficaram com medo da situação", explicou Zhara em entrevista ao R7

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Em meio ao desespero, ela entrou em contato com alguns colegas do jornal britânico The Guardian. Após começar os trâmites para conseguir refúgio no Reino Unido, recebeu um e-mail da embaixada britânica em Cabul com a autorização para entrar no país. Em 26 de agosto, 11 dias depois do Talibã assumir o poder, Zhara chegou a Londres como refugiada, acompanhada por duas irmãs e um irmão. Ela ainda tenta tirar o restante de seus familiares do Afeganistão. 

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"Não me sinto corajosa, apenas tentei ser forte"

Zhara Joya, jornalista afegã

Zhara faz parte da minoria de afegãs que conseguiram frequentar a universidade. "Estamos tentando levantar nossas vozes e lutar por igualdade. O Talibã precisa entender que, nesses últimos 20 anos, as mulheres estudaram e trabalharam. Existe uma nova geração agora".

"Não me sinto muito corajosa, apenas tentei ser forte para exercer meus direitos e minha profissão. Em toda a minha vida eu nunca imaginei que um dia seria uma refugiada", completou. 

O Talibã tenta convencer o mundo de que será mais moderado em relação ao último período em que controlou o Afeganistão, entre 1996 e 2001. Mesmo sem muitas lembranças desses anos de repressão, a jornalista não acredita nas promessas. 

 

Mulheres jornalistas
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Em novembro de 2020, Zhara fundou a Rukhshana Media, site em que mulheres jornalistas contam a história de várias afegãs em todo o país, desde como são tratadas dentro de casa até sua luta por direitos em uma sociedade em que o conservadorismo religioso e o patriarcado governaram todos os aspectos da vida social.

"Desde 2011 eu sou jornalista no meu país, tive o apoio dos meus pais, mas o tempo inteiro enfrentei dificuldades para exercer o meu trabalho, devido à situação precária que as mulheres enfrentam no Afeganistão. Criei a plataforma para que fosse um espaço seguro de discussão entre todas nós", diz a afegã. 

O site leva o nome de uma afegã que, em outubro de 2015, foi apedrejada até a morte por fugir de um casamento forçado para viver com o homem que amava. Oficiais da província de Ghor, onde Rukhshana foi assassinada, acusaram o Talibã de orquestrar o assassinato, mas o crime nunca foi julgado.

"Nossa redação se chama Rukhshana para nos lembrarmos da profunda desigualdade de gênero no Afeganistão, onde as mulheres são mortas por tomarem decisões sobre seus corpos e suas vidas privadas".

As mulheres e o Talibã

Zhara conta que havia mais liberdade durante os 20 anos em que os EUA ocuparam o Afeganistão. Nesse período, mulheres podiam buscar emprego fora de casa e meninas podiam frequentar as escolas e almejar um diploma universitário.

Esse cenário é bem diferente em menos de dois meses do novo regime e aos poucos o receio da jornalista sobre o futuro das mulheres de seu país começa a ganhar forma.

No final de setembro, o novo reitor da Universidade de Cabul, Mohammad Ashraf Ghairat, posto nas redes sociais que não seria aceito funcionárias do sexo feminino e que somente alunos homens frenquetariam as salas de aula da instituição, tudo sob a justificativa da religião.
“Enquanto um ambiente islâmico não for criado para todos, mulheres não poderão ir para a universidade ou trabalhar. Islã primeiro”, escreveu Mohammad.

Além de perderem o direito ao estudo, a afegãs também foram proibidas de praticar esportes poucas semanas depois da tomada de Cabul. Um dos líderes talibã disse que essa é uma atividade “desnecessária” e que as mulheres corriam o risco de ficar com o corpo e o rosto descobertos, o que iria de encontro com o Islã.

Em meio a uma crise política e econômica e sob o regime extremista, a situação da população do Afeganistão como um todo é de vulnerabilidade. A ONU estima que pelo menos 500 mil refugiados afegãos devem deixar o país em busca de um lugar seguro para reconstruir a vida.

"Os afegãos simplesmente não podem viver com esse grupo terrorista no poder. A comunidade internacional deveria olhar para os motivos que levam a população a querer deixar o país", diz Zhara.