
No último final de semana, dois casos chamaram atenção para algo que acontece de forma recorrente: o engasgo de bebês. Na sexta-feira, 13, uma criança de 18 dias se sufocou com o leite materno e na madrugada de domingo, 15, ocorreu o mesmo com um recém-nascido de apenas oito dias de vida. Nos dois casos, a Brigada Militar (BM) foi acionada e realizou a manobra de Heimlich para o salvamento de ambos.
O major do 3º Batalhão de Policiamento de Áreas Turísticas (Bpat), Luis Fernando Becker, afirma que a incidência desses casos não é rara. “Neste ano, somente a BM atendeu 10 casos envolvendo crianças”, frisa.
O ideal, entretanto, é acionar o Corpo de Bombeiros ou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). “Eles são quem socorrem. Como não é uma ocorrência típica de policiais atenderem, mesmo com o preparo básico de primeiros socorros, para eles, agir em um momento destes se torna um desafio. Em cada caso bem-sucedido o alívio dos pais se torna o melhor agradecimento que um policial pode receber”, salienta.
Becker sabe bem a importância de agir rápido nesses momentos. “Enfrentei a perda de um afilhado de um ano e sete meses por engasgamento. Quando uma criança é salva remete à memória daquele anjinho que não conseguiu sobreviver. É importante todos conhecerem a manobra”, relata.
O tenente do Corpo de Bombeiros Militar de Bento Gonçalves, Edson Germiniani, também enfatiza que é bastante comum tais ocorrências. A corporação atende casos como esse ao menos uma vez por mês. “Os recém-nascidos são mais suscetíveis pela alimentação que eles têm até os seis meses, que é basicamente em líquido. A gente sempre sugere que a mãe, quando descobre que está grávida, faça o acompanhamento pré-natal no posto de saúde e, após o nascimento, continue. Ali as enfermeiras vão dar todas as orientações necessárias que vão deixar a mãe mais tranquila no manejo da criança”, ressalta.
Ele também explica que nesses momentos é preciso ter calma. “Ligue para o Corpo de Bombeiros ou Samu, que terá uma orientação sobre como proceder, pois não é uma manobra difícil de se fazer”, recomenda.
Para os responsáveis, os cuidados são em evitar que o pior aconteça. “Ter as formas corretas de posicionar o bebê após a amamentação, não pode colocar ele para dormir de bruços, realizar a amamentação sentada e nunca deitada. Caso o pai ou a mãe notem que a criança se engasgou, devem proceder com os primeiros socorros. Existem postos de saúde que ensinam a manobra”, aconselha.
Germiniani evidencia, porém, que há intercorrências também em adultos. “Alimentos mal mastigados, pessoa que comeu um pedaço maior de carne, por exemplo. A gente atende também bastante casos”, destaca.
A pediatra Simone Caldeira Silva destaca que sufocação ou obstrução de vias aéreas é a primeira causa de morte acidental de crianças de até um ano de vida. “Os bebês aprendem a sugar ainda durante o processo de formação no útero. Esse ato fortalece a musculatura que movimenta o maxilar e a mandíbula, auxiliando na amamentação e preparando terreno para a mastigação. Entretanto, engolir pode demorar um pouco mais de tempo para ser aprendido e treinado, aumentando o risco de engasgamento, inclusive com leite materno. Isso pode acontecer quando demoram a controlar, simultaneamente, a respiração, o ato de sugar e a deglutição do leite”, esclarece.
Além disso, a médica sublinha que os próprios bebês já crescem com a consciência de que experimentar o novo pode trazer satisfação e alegria. “Desde que começam a desenvolver a coordenação motora e a firmeza das mãos eles podem se engasgar porque passam a colocar tudo na boca como forma de descobrir novos sabores. Como nos bebês os músculos da tosse ainda estão em desenvolvimento e as vias aéreas são pequenas, o engasgo pode ser perigoso, já que atrapalha a respiração”, pontua.
Simone diz que as principais causas de engasgo do bebê são com o leite, durante a amamentação; por meio de alimentos em grãos, como feijão e ervilha; ingestão de líquidos, inclusive na mamadeira, ao ficarem deitadas ou mal recostada; com peças pequenas de brinquedos, baterias, ímãs, moedas; pedaços de frutas escorregadias; além de poder ocorrer ao deitar o bebê depois de comer ou mamar antes de arrotar.
É necessário prestar atenção aos sinais de que a criança está engasgada. A médica exemplifica que os principais são tosse com choro, espirro e náuseas durante a alimentação; dificuldade de respirar, com palidez ou lábios arroxeados; respiração rápida e ofegante de repente; muito esforço para respirar e tentativa de choro, sem que o som saia. “Caso isso aconteça, é necessário manter a calma para ter condições de ajudar e seguir algumas orientações. Independente da idade da criança, o engasgo é um quadro que pode evoluir para gravidade”, alerta.
Segundo o Corpo de Bombeiros, ao se deparar com essa situação, o primeiro passo é manter a calma, entrar em contato pelo telefone 193 ou com o SAMU no 192 e iniciar, o mais breve possível, a manobra de desobstrução:


Na obstrução parcial, haverá tosse que deve ser estimulada até que o corpo estranho seja expelido
Na obstrução total, a vítima poderá levar as duas mãos ao pescoço (Sinal Universal de Asfixia). Neste caso não haverá tosse, devendo iniciar a manobra de desobstrução (Manobra de Heimilich), que tem por objetivo provocar uma “tosse artificial”.
Em crianças a partir de um ano, aproximadamente, colocando-se de joelhos atrás dela, posicionando uma das mãos fechada acima do umbigo, cobrindo com a outra mão, aplicar golpes fortes em “J” para dentro e para cima até que o objeto seja expelido ou evolua para inconsciência.
Em adultos, posiciona-se atrás da vítima, colocando uma das pernas entre as pernas dela e afastando os pés na largura dos ombros, posicionando uma das mãos fechada acima do umbigo, cobrindo com a outra mão, aplicar golpes fortes em “J” para dentro e para cima até que o objeto seja expelido ou evolua para inconsciência.
Em grávidas e obesos, as compressões devem ser realizadas posicionando as mãos no centro do tórax, fazendo força para trás


Soldado Kaemily Lemes Colla Pellin demonstra como fazer a manobra de Heimilich em crianças a partir de um ano e em adultos
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