Quarta, 29 de Julho de 2026
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Hospital de Gravataí rescinde contrato com funcionários envolvidos em suposto caso de injúria racial

Demissões foram resultado de sindicância interna aberta após o episódio.

Por: Redação Acontece no RS Fonte: Correio do Povo
24/04/2020 às 08h01
Hospital de Gravataí rescinde contrato com funcionários envolvidos em suposto caso de injúria racial
Foto: Divulgação/ Santa Casa

O Hospital Dom João Becker, de Gravataí, divulgou, nesta quinta-feira, o resultado da sindicância aberta após um idoso ter denunciado um suposto caso de injúria racial, no fim de semana passado. O homem, que é negro, contou à Polícia ter sido acusado de furto de um celular. Everaldo da Silva Fonseca também relatou que mulher dele, internada em estado grave, presenciou as agressões e ofensas, vindo a falecer em seguida. Em nota relativa à sindicância, a direção da casa de saúde nega as agressões e a denúncia de injúria racial, mas oficializa o desligamento de três funcionários, que, segundo o hospital, tiveram comportamento “em desacordo com o Código de Conduta da Instituição”.

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Conforme o comunicado, a paciente Maria Gonçalves Lopes, de 55 anos, chegou ao Dom João Becker em estado grave, potencializado, segundo laudo da Samu, por doenças pré-existentes: cirrose hepática, desnutrição, desidratação e rebaixamento sensório. O Hospital garante que, no momento de admissão do paciente, os familiares foram comunicados da gravidade do quadro e do risco de evolução para óbito.

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O relatório da sindicância detalha que o episódio do extravio do celular de uma funcionária do Hospital ocorreu às 4h de sábado. Foi neste momento que os funcionários acusaram Everaldo e o obrigaram a retirar todos os pertences da bolsa. As ações foram filmadas pelas câmeras de segurança do Hospital, segundo a nota. Sem que nada tenha sido encontrado com Everaldo, o celular é achado, mais tarde, por um funcionário, em outro lugar do complexo. Os seguranças da instituição disseram ter suspeitado de Everaldo porque o celular dele vibrou no momento em que era feita uma chamada para o aparelho perdido. A sindicância esclarece que a ligação era da filha dele, tentando contato.

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O Hospital detalha que o óbito de Maria ocorreu às 9h da manhã seguinte, por causas naturais, cinco horas após o episódio. Ainda de acordo com a sindicância, não é possível constatar “nexo de causalidade plausível entre os eventos, até mesmo porque a paciente não tinha quaisquer condições clínicas de percepção do seu entorno”, conforme “documentos de registro assistencial”.

A direção do Dom João Becker entregou o relatório da sindicância interna ao gestor municipal da Saúde, ao Conselho Municipal da Saúde e à Polícia Civil. Uma cópia também vai ser entregue ao Ministério Público.

Boletim de ocorrência

A família de Everaldo denunciou que Maria teve uma parada cardíaca ao ver o marido, de  62 anos, sofrer agressões e ser acusado do furto do celular de uma funcionária. Além de insultos de cunho racistas, o idoso contou ter sido agredido por um vigilante privado. Ele também relata que funcionários tentaram pedir desculpas, oferecendo a ele um lanche e suco após terem encontrado o aparelho esquecido em uma sala. Ainda conforme a denúncia, funcionários chegaram a revistar o leito da esposa doente, conforme consta no boletim de ocorrência.

Veja, na íntegra, a nota do hospital:

A direção do Hospital Dom João Becker concluiu, nesta quinta-feira, a sindicância interna encarregada de averiguar os fatos ocorridos nas dependências do Hospital Dom João Becker na madrugada do último sábado, 18/04, envolvendo familiar de paciente.

A sindicância, conduzida por uma equipe multiprofissional da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, teve como base o Código de Conduta vigente em todos os hospitais da instituição.

Assim, apresentamos a seguir as principais conclusões e as providências encaminhadas:

1. Conforme já informado, a paciente M.A.R. foi levada ao hospital Dom João Becker pela SAMU na manhã do dia 17/4, em estado grave em razão de doença pré-existente – cirrose hepática, desnutrição, desidratação, rebaixamento sensório, estado caquético, conforme laudo da SAMU. Na admissão da paciente, no setor de Emergência, a família foi comunicada pelo médico sobre a gravidade do quadro e da possível evolução para o óbito. Foi disponibilizado todo atendimento médico e assistencial necessário ao quadro clínico.

2. Por volta de 4h00 do dia 18/4, houve um episódio de extravio do celular de uma funcionária do setor onde a paciente encontrava-se. Coincidentemente, ao ser procurado, por ligação de colegas de trabalho ao número do telefone extraviado, percebeu-se a vibração de um celular próximo ao familiar da referida paciente, circunstância esta que desencadeou todo o lamentável fato que se sucedeu. Um segurança foi chamado para verificação junto ao familiar, o qual foi convidado voluntariamente para conversar em um corredor contíguo, local onde há o monitoramento de câmeras de segurança, nas quais todas as imagens foram registradas. Verifica-se que, na abordagem, não há qualquer tipo de agressão física ou reação exacerbada do segurança que pudesse representar qualquer indício de ameaça física. Encerrada a abordagem, quando o próprio familiar retirou seus pertences de uma bolsa e mostrou ao segurança, nada foi encontrado, apenas a constatação de que sua filha estava tentando contatar com ele, razão pela qual o seu celular havia vibrado. Este episódio (extravio do telefone) logo veio a ser esclarecido, com a localização do aparelho em outro ambiente do hospital, havendo então pedidos de desculpas ao familiar por parte da funcionária envolvida, conforme atestam diversos outros funcionários presentes.

3. O episódio não teve qualquer tipo de motivação racial, e tampouco houve injúria desta natureza, conforme especulado indevidamente em redes sociais.

4. O óbito da paciente ocorreu por volta de 9h50 por causas naturais, portanto mais de 5 horas após o primeiro episódio, devido à gravidade de doença crônica pré-existente, não havendo qualquer nexo de causalidade plausível entre os eventos, até mesmo porque a paciente não tinha quaisquer condições clínicas de percepção do seu entorno, conforme atestam todos os documentos de registro assistencial.

5. Foram ouvidos pela sindicância interna integrantes do corpo funcional do hospital, envolvidos ou não no episódio, que estavam trabalhando no setor onde se deu o evento, empregado de empresa terceirizada e acompanhantes de pacientes que estavam no mesmo ambiente em que se deram os fatos.

6. Diante do exposto, a Direção do Hospital Dom João Becker definiu pela rescisão unilateral do contrato de trabalho de três funcionários, cujo comportamento no episódio esteve em desacordo com o Código de Conduta da Instituição.

7. A íntegra do relatório da sindicância interna foi entregue e protocolada ao Gestor Municipal da Saúde, ao Conselho Municipal da Saúde e à Polícia Civil. Também será entregue ao Ministério Público, tão logo este órgão esteja disponível para receber. Para os dois últimos, são entregues também DVDs com as imagens das câmeras do circuito interno de TV.

A Direção do Hospital Dom João Becker, uma vez mais, lamenta o ocorrido, na convicção de que fez seu papel na ágil apuração dos fatos e certa de que as investigações das autoridades irão corroborar as informações ora disponibilizadas.

Hospital Dom João Becker
Gravataí, 23 de abril de 2020

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