
É extensa a lista de fatores que tornaram a corrida ao Senado em 2026 no RS a mais agressiva de todo o conjunto da competição. O contexto local dá suas próprias cores à eleição, mas é a combinação com uma série de elementos em disputa no cenário nacional o que explica tanto acirramento.
Há, no Estado, nestas eleições, 13 candidatos, e duas vagas em jogo. Dos 13, oito ganharam maior visibilidade, sendo seis deles detentores de trajetórias ou votações expressivas na política local: um ex-governador, três deputados federais, entre os quais um ex-ministro, o atual líder do governo na Assembleia Legislativa e uma ex-deputada que já integrou chapa presidencial. São eles, pela ordem, Germano Rigotto (MDB), Marcel van Hattem (Novo), Ubiratan Sanderson (PL), Paulo Pimenta (PT), Frederico Antunes (PSD) e Manuela d’Ávila (PSol).
Diferentes sondagens eleitorais apontam que, entre os seis, cinco estão ‘embolados’ na disputa pelas duas vagas. E ninguém, dentro das campanhas, arrisca uma aposta fechada. Porque o histórico dos pleitos mostra que, além de o voto para o Senado ser quase sempre o último que o eleitor define, em corridas com duas vagas, ele fica muito suscetível tanto a mudar de opinião como a fazer as combinações mais improváveis.
Além dos seis mais conhecidos, a lista completa de concorrentes inclui Milton Cardoso, (Cidadania), Renato Jaguarão (PSDB), Daniela Maidana da Silva e Regis Ethur (ambos do PSTU), Luciano Schafer e Tânia Perez (os dois da UP) e Ric Jones (PCO).
A densidade eleitoral de uma parcela dos nomes, o fato de integrarem coligações com chapas majoritárias competitivas, e de Manuela e Van Hattem apresentarem antagonismo visceral, sendo ambos detentores de forte presença digital, por si só, já garantiria emoção suficiente ao pleito. Mas somou-se a esta configuração o estilo ‘bateu, levou’, de Pimenta, e dois competidores (Jaguarão e Cardoso) com agendas e campanha de rua que ninguém enxerga. Mas que, sempre que podem, atuam como franco-atiradores, à esquerda e à direita.
Ao final, a corrida, já ‘carregada’, ganhou um último ingrediente. Após o capital político de Rigotto lhe proporcionar uma arrancada que gerou temor na dobradinha Sanderson/Van Hattem, exércitos digitais desencadearam nas redes uma ofensiva para tentar ‘liquidar’ com as chances do emedebista. Tão intensa que, entre equipes das campanhas, ganhou o apelido de ‘ataque cibernético’.
Não bastasse o cenário conturbado, a eleição para o Senado tem um formato diferente de todos os demais. E que inclui, neste ano, em todos os estados e no Distrito Federal, a disposição de duas cadeiras em jogo, que resultará em uma renovação parcial, de dois terços, da Casa Legislativa. O terço restante disputará as próximas eleições gerais, em 2030, quando, ao invés de dois, será escolhido um senador em cada estado. Em resumo, o Senado não troca todos os seus integrantes ao mesmo tempo e seus 81 membros, ao contrário de todos os demais detentores de mandatos eletivos, permanecem na cadeira por oito anos ao invés de quatro.
O modelo acaba mesmo por confundir parte do eleitorado, mas tem motivos nobres, como a garantia da manutenção da estabilidade democrática. A renovação alternada foi pensada para, entre outros pontos, assegurar direitos de minorias políticas, minimizar a formação de conchavos, evitar que debates que tratam de questões complexas acabem contaminados por disputas pontuais e impedir que grupos radicais consigam dominar a Casa em função do clima político de um processo eleitoral específico.
A ordem de votação na urna também não facilita para o eleitor. As duas escolhas para o Senado estão no meio de uma lista na qual, para todos os outros cargos, só existe uma opção. Se, ao votar para senador, o eleitor escolher o mesmo nome nas duas opções, vai anular o segundo voto. E, se não tiver atenção, ficar em dúvida, ou com pressa, pode acabar deixando o segundo voto em branco.
Para além do formato único, a composição do Senado, até então uma casa legislativa com a qual a população tinha pouca familiaridade, apesar de sua importância, adquiriu, desde 2015, cada vez mais peso na definição dos rumos do país. Foi a partir daquele ano que o Congresso passou a controlar fatias cada vez maiores do orçamento. Inicialmente, através da instituição das chamadas emendas impositivas, mecanismo que tornou obrigatória, por parte do Executivo, a execução de emendas parlamentares individuais.
O processo se consolidou em 2019 e 2022, com novas obrigatoriedades dando ainda mais poder aos congressistas. E que, em função da falta de transparência e de sucessivas denúncias sobre ilegalidades e desvios, geraram questionamentos e investigações que foram parar no Supremo Tribunal Federal (STF). Ato contínuo, uma parcela de políticos e partidos passou a hostilizar a Corte, investindo na banalização da possibilidade de impeachment de seus ministros, um processo que só pode ser aberto justamente pelo presidente do Senado.
A disputa por valores bilionários, contudo, não foi o único fator a acirrar as corridas para a Câmara Alta. Incomodado com os sucessivos freios que lhe foram impostos pelo STF, o bolsonarismo encampou com força a bandeira do impeachment de ministros da Corte, e trabalha desde a eleição passada para fazer maioria no Senado, definir seu presidente e, assim, levar a cabo as alterações que pretende na Corte.
Turbinado financeiramente, e por isso bem menos dependente do poder Executivo, e ciente das possibilidades de ter seu poder aumentado também frente ao Judiciário, o Senado passou a fazer valer com empenho crescente algumas das competências exclusivas que lhe são conferidas pela Constituição de 1988. Cabe aos senadores, e só a eles, processar e julgar nos crimes de responsabilidade não apenas ministros do STF, mas, também, o presidente e o vice-presidente da República, ministros de Estado, comandantes das Forças Armadas, membros dos conselhos nacionais de Justiça e do Ministério Público, o procurador-geral da República (PGR) e o advogado-geral da União (AGU).
São os senadores, ainda, que aprovam ou não a escolha de uma série de ocupantes de cargos-chave do Executivo e do Judiciário, como, de novo, os integrantes do STF, do Tribunal de Contas da União (TCU), o PGR, o presidente do Banco Central e embaixadores. Eles também fixam os montantes globais da dívida pública e autorizam empréstimos externos para a União, estados, municípios e o Distrito Federal.