Domingo, 30 de Agosto de 2026

Há 20 anos, criminosos do PCC cavaram túnel no Centro de Porto Alegre

Há 20 anos, criminosos do PCC cavaram túnel no Centro de Porto Alegre.

Por: Redação Acontece no RS Fonte: Correio do Povo
30/08/2026 às 15h19
Há 20 anos, criminosos do PCC cavaram túnel no Centro de Porto Alegre
Operação Facção Toupeira da PF. Tentativa de roubo ao Banrisul e CEF pelo PCC via túnel na rua Caldas Júnior, em Poa. Foto : Diego Vara / CP Memória

Dono de um restaurante na rua Siqueira Campos, Jandir Anselmini, de 61 anos, ainda tem guardado na memória o dia em que a Polícia Federal cercou o prédio e prendeu integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), em setembro de 2006, no Centro Histórico de Porto Alegre. O grupo estava escavando um túnel para arrombar e furtar os cofres do Banrisul e da Caixa Econômica Federal.

Anselmini é proprietário do estabelecimento desde 1994 e, em 2025, alugou mais um espaço, onde funcionava um quarto de um antigo hotel — exatamente onde começou a escavação do túnel em 2006. Parte da estrutura está preservada dentro de uma das salas do restaurante e coberta por uma tampa de acrílico. É a única fração visível, pois o restante do túnel foi concretado após a ação policial. Atualmente, a área é uma das mais disputadas pelos clientes: conhecida como “espaço do assalto”, aceita reservas para grupos de 20 a 30 pessoas, com capacidade total para 50.

Anselmini recorda que dia 1º de setembro começou limpo, com céu azul e sem vento. Por volta das 6h30min, enquanto erguia a quarta cortina de ferro do restaurante, o comerciante se deparou com dois homens encapuzados e de metralhadora em punho. “Levei um grande susto, pensei que fossem me assaltar”, conta Anselmini, com um leve sorriso. “Em seguida, disseram que eram da Polícia Federal e mandaram eu entrar.” Naquela manhã, o restaurante, que costumava abrir às 11h, só começou a atender às 13h30min devido à intensa movimentação de agentes e curiosos.

O proprietário jamais imaginou que os “toupeiras” estivessem tão perto. Segundo ele, alguns criminosos chegavam a almoçar no restaurante e, por vezes, buscavam de 10 a 12 marmitas — nada que levantasse suspeitas no dia a dia. “Não tinha como desconfiar”, afirma. “Disseram que haviam comprado o imóvel para reformar e, realmente, víamos muita madeira chegando.”

 

O CARTÃO

O crime foi descoberto a partir de um descuido de um criminoso do PCC em Fortaleza (CE), a cerca de 4.198 quilômetros em linha reta de Porto Alegre. A chamada Operação Facção Toupeira, comandada pela Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal (PF) no Rio Grande do Sul, prendeu 26 bandidos em 1º de setembro, a maioria paulistas, em um prédio de sete andares na esquina da rua Caldas Júnior com a avenida Mauá, comprado três meses antes pelo grupo.

Os assaltantes cavariam um túnel de 85 metros de extensão até a agência matriz do Banrisul, situada na quadra entre as avenidas Siqueira Campos e 7 de Setembro e ruas Caldas Júnior e Capitão Montanha. Faltava só um pequeno trecho sob a rua Caldas Júnior para que pudessem atingir o prédio, onde pretendiam furtar cerca de R$ 80 milhões, em uma ação semelhante à realizada no ano anterior contra a sede do Banco Central em Fortaleza, quando foram levados mais de R$ 164 milhões. No bairro Partenon, mais quatro pessoas foram presas em uma casa alugada como “QG”. Outros 12 suspeitos foram detidos em nove estados, entre eles o líder do roubo no Ceará. Em Porto Alegre, caso chegassem também à Caixa Econômica Federal, o valor total das duas agências seria de R$ 200 milhões.

A perícia inspecionou o túnel, que tinha 80 metros. O final da estrutura ficava na rua Siqueira Campos, esquina com Caldas Júnior, embaixo da sinaleira existente no local 

A perícia inspecionou o túnel, que tinha 80 metros. O final da estrutura ficava na rua Siqueira Campos, esquina com Caldas Júnior, embaixo da sinaleira existente no local | Foto: Ricardo Giusti / CP Memória

A investigação para frustrar a ação do PCC começou com um erro que só bandidos inexperientes cometeriam. Após o roubo dos R$ 164,7 milhões do Banco Central de Fortaleza, foi encontrado na casa em que foi construída a entrada do túnel de acesso ao cofre do banco um cartão de telefone celular pré-pago. A perícia da PF conseguiu identificar o número do cartão e, por meio dele, foi descoberto o telefone que havia recebido os créditos. “Percebemos que ele havia sido recarregado e começamos a monitorá-lo”, disse o ministro da Justiça da época, Márcio Thomaz Bastos.

A perícia no cartão telefônico revelou um número de telefone específico usado pelos criminosos no Ceará. No entanto, ao rastrear os contatos e os donos das linhas associadas ao número, os policiais chegaram a um criminoso conhecido pelo apelido de "João das Couves". Este era o assaltante gaúcho que fazia a ponte entre a facção paulista e criminosos locais no RS. O monitoramento dos passos dele foi o fio da meada que permitiu à PF descobrir a compra do prédio no centro de Porto Alegre e interceptar a escavação antes que eles chegassem aos cofres dos bancos. O local era monitorado dia e noite.

Em sua edição de 2 de setembro de 2006, o Correio do Povo descreve como se desenvolveu a operação, com base nas informações da PF. Um pequeno caminhão-baú, que levava os policiais estaciona, às 4h30min, na rua Caldas Júnior, próximo do prédio abandonado onde estavam os criminosos, na esquina com a avenida Mauá. Os responsáveis pela escavação do túnel se revezavam no trabalho dia e noite, sendo todos de São Paulo. A tarefa era abrir o buraco até o Banrisul. Um primeiro túnel havia sido iniciado, mas abandonado em seguida pelas dificuldades encontradas no caminho. Uma segunda equipe, com equipamentos para perfurar a blindagem do cofre, viajaria para Porto Alegre com a missão de retirar o dinheiro do banco. Nesta fase do plano, a fuga teria cobertura de criminosos fortemente armados, que ainda não estavam na Capital. Havia indícios, porém, de que o PCC já poderia estar com seu pessoal de confiança na cidade.

Entrada do túnel e bomba de ar  

Entrada do túnel e bomba de ar | Foto: Roberto Vinícius / CP Memória

Os policiais sabiam que um dos bandidos deixava o local para comprar pão sempre por volta das 7h. No momento em que ele retornou ao prédio, a equipe saiu do caminhão e o rendeu enquanto a porta do prédio estava aberta. Ao invadirem o edifício, os agentes atiraram bombas de luz e som para atordoar os criminosos. Muitos estavam escavando o túnel. Para que saíssem, bastou desligar a bomba de ar. Pouco depois, o calor e a falta de oxigênio fizeram com que todos surgissem. Os assaltantes foram levados, um a um, para dentro da caçamba do caminhão. Houve a apreensão de ferramentas, pás, picaretas, cordas, baldes, capacetes e roupas de operários usadas para não despertar suspeitas na vizinhança, além de chips de celulares e R$ 20,5 mil, cujos números de série indicavam ser do roubo de Fortaleza.

Ao mesmo tempo em que o edifício da Caldas Júnior era ocupado pela Polícia, outro grupo de agentes invadia o QG dos criminosos no bairro Partenon, onde foram presos três bandidos e uma mulher. Um cão Rottweiler atacou os policiais e teve de ser baleado. A casa de três pisos tinha sido alugada havia quatro meses por R$ 1,5 mil mensais, como se fosse para uma empresa de engenharia de Minas Gerais, o que justificaria a movimentação de pessoas e o sotaque dos inquilinos. “Pagaram adiantado o aluguel de cinco meses”, disse o dono do imóvel. O prédio da rua Caldas Júnior foi negociado por um testa de ferro do PCC, preso em São Paulo, por R$ 1,2 milhão. Já haviam sido pagos R$ 300 mil.

PERTO DO BANCO

Uma equipe de técnicos da Polícia Federal, da Polícia Civil e de diretores e seguranças do Banrisul vistoriou o túnel cavado pelos integrantes do PCC, logo após a prisão dos "toupeiras". O túnel tinha cerca de 80 metros de extensão e cerca de 70 centímetros de altura e de largura. Quando a PF prendeu o bando, o túnel havia chegado na frente da agência do Banrisul, exatamente do outro lado da rua onde ficam os portões de entrada e saída dos carros-fortes que abastecem o banco. O superintendente da PF no RS na época, José Francisco Malmann, estima que a quadrilha conseguiria chegar aos cofres, localizados a 5 metros abaixo do solo, no feriado de Sete de Setembro, quando invadiriam o banco de madrugada. A ação renderia ao grupo cerca de R$ 80 milhões. Malmann revelou ainda que os bandidos contavam com informações privilegiadas, já que tiveram acesso a mapas da rede de serviços subterrâneos – água, esgoto, telefonia e outros – para que escavassem o túnel corretamente.

O superintendente também disse que a descoberta do plano começou a ser confirmada dois meses e meio antes da ação, com a prisão de João das Couves, que tinha ligação com o bando que roubou R$ 164,7 milhões do Banco Central do Ceará, em 2005. “Desde a prisão dele, nós detectamos que essa facção viria para cá praticar um roubo no estilo daquele que ocorreu no Ceará”, assegurou. O delegado regional de Combate ao Crime Organizado da PF, Ildo Gasparetto, declarou na época que "a terra retirada durante a escavação do túnel era colocada em sacos e distribuída nos sete andares do prédio. Um contêiner estava na calçada para dar credibilidade à falsa obra". Em um dos andares, os policiais localizaram diversos colchões, roupas e restos de comida, além de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, abrigada em uma pequena estante.

A perícia da PF chegou ao final do túnel, que tinha 80 metros de extensão. O final da estrutura ficava na rua Siqueira Campos, esquina com Caldas Júnior, embaixo da sinaleira existente no local. Segundo o delegado regional de Combate ao Crime Organizado da PF, delegado Ildo Gasparetto, o PCC investiria R$ 10 milhões no total para assaltar os bancos, valor gasto em alimentação, compra do prédio, aluguel da residência, questões logísticas, contratação de advogados, entre outros.

Os 26 criminosos detidos foram levados para a sede da Polícia Federal (PF), onde prestaram depoimento e após foram submetidos a exame de corpo delito no Departamento Médico Legal. Às 22h15min, os membros do PCC começaram a ser conduzidos em dois micro-ônibus da Susepe – escoltados por cinco viaturas da PF, sem a presença da Brigada Militar – até a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (PASC). Quando a quadrilha chegou à PASC, a presença de integrantes paulistas ligados ao PCC gerou um forte alerta de segurança por receio de atritos com as lideranças das facções gaúchas já custodiadas no local. Para evitar qualquer tipo de confronto ou aliança indesejada, o Estado aplicou um protocolo de isolamento estrito interno: os membros do PCC não ficaram misturados ao restante dos detentos, sendo mantidos em galerias/módulos fechados de segurança máxima. De acordo com o superintendente da Susepe na época, Djalma Gautério, muitos líderes de facções gaúchas se posicionaram contra a presença dos toupeiras no estabelecimento prisional.

Os principais líderes da quadrilha foram posteriormente conduzidos à Penitenciária Federal de Catanduvas (PR), enquanto os demais integrantes acabaram transferidos de volta para presídios em seus estados de origem, principalmente São Paulo.

Alojamento dos criminosos em Porto Alegre

Alojamento dos criminosos em Porto Alegre | Foto: Diego Vara / CP Memória

MAIS UM TÚNEL

Na época em que a Polícia Federal deflagrou a Operação Facção Toupeira no Rio Grande do Sul, outras ofensivas foram lançadas em São Paulo, Alagoas, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Tocantins e Piauí, onde o suspeito de liderar o assalto ao Banco Central do Ceará foi preso. No dia 10 de setembro, foi divulgado que assaltantes também tinham cavado um túnel em Maceió, capital de Alagoas, e tinham sido presos. Segundo o superintendente interino da Polícia Federal em Alagoas, delegado Fernando Castro, a quadrilha ligada ao PCC cavou o túnel para furtar uma agência da Caixa Econômica Federal e teria também como alvo outros dois bancos da região e uma transportadora de valores. Segundo ele, a escavação havia se iniciado em junho e parado em agosto, para que os bandidos dessem suporte aos comparsas na construção do túnel no centro de Porto Alegre.

Depois de deflagrada a operação em Porto Alegre, as investigações da Polícia Federal (PF) se voltaram à participação de gaúchos no esquema. O delegado José Francisco Malmann, anunciou a segunda fase da Operação Facção Toupeira, com 39 presos em todo o país, dos quais 26 em Porto Alegre. “É lógico que os criminosos tiveram apoio de pessoas daqui”, avaliou Malmann, na época. Segundo ele, a quadrilha tinha conhecimento do caminho correto do túnel na direção do Banrisul sem atingir as tubulações de água e esgoto. Para o superintendente, o plano do PCC contou com informações privilegiadas, inclusive sobre a localização do próprio cofre, que fica em torno de 5 metros abaixo da superfície.

No trecho do Centro Histórico, a estrutura alcançava cerca de 4 metros de profundidade; mais perto das agências bancárias, passava para aproximadamente 3 metros. Os criminosos já trabalhavam na escavação havia pelo menos três meses. Lembrando o acontecido há 20 anos, o dono do restaurante da Siqueira Campos disse ter observado que um dos criminosos encarregados da escavação pesava no máximo 45 quilos e era muito baixo. Era alguém que conseguia se movimentar com certa facilidade no espaço apertado do túnel.

A Polícia Federal realizou também um levantamento de bens e propriedades do PCC em vários estados, inclusive no Rio Grande do Sul, com o objetivo de confiscá-los e identificar os testas de ferro. Outra medida executada foi o bloqueio de contas bancárias mantidas pela facção com o dinheiro de seus roubos. A atuação do PCC é antiga no RS, seja pelos ataques bancários, com gerentes mantidos reféns, seja pelo tráfico de armas vindas dos países vizinhos. Envolvimentos de bandidos gaúchos com a facção já foram constatados.

Dias depois da operação, a Prefeitura de Porto Alegre realizou a obra de fechamento do túnel que levaria aos cofres dos bancos

Dias depois da operação, a Prefeitura de Porto Alegre realizou a obra de fechamento do túnel que levaria aos cofres dos bancos | Foto: Alexandre Mendez / CP Memória

URUGUAI

Os integrantes do grupo presos em Porto Alegre pretendiam cometer o mesmo crime no Uruguai. Segundo disse na época o delegado Ildo Gasparetto, da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal, alguns membros da quadrilha informaram que usariam naquele país a mesma forma de escavar os recentes túneis de Porto Alegre e de Maceió, e os de Fortaleza, de 2005, e de Assunção, no Paraguai, em fevereiro. A polícia paraguaia descobriu um túnel de 166 metros que levaria ao ABN Amro Bank, em Assunção, em 22 de fevereiro. Os ladrões fugiram.

Gasparetto informou que a quadrilha pretendia roubar os dois bancos na capital gaúcha e fugir para o país vizinho, onde se esconderia por algum tempo até ter condições de fazer o mesmo naquele país. O delegado não descartou a hipótese de que o estacionamento do Banco do Brasil na rua Caldas Júnior, por baixo do qual a escavação passava, seria utilizado pelos integrantes da facção para fugir com o dinheiro roubado. Para isto, precisariam cavar verticalmente, fazendo uma abertura para escapar, após consumarem o crime.

DESFECHO DO CASO

A Justiça Federal julgou 30 denunciados pelo Ministério Público Federal por terem participado da tentativa de furto. O processo tramitou na 1ª Vara Federal Criminal de Porto Alegre, especializada em crimes de lavagem de dinheiro, contra o sistema financeiro nacional e praticados por organizações criminosas. A ação penal, com os 30 réus, foi instaurada em 10 de outubro de 2006 e concluída no prazo de seis meses e três dias.

Durante a instrução do processo, foram realizadas audiências na PASC para interrogatório dos réus e por videoconferência, para oitiva de testemunhas de acusação com a assistência dos presos. Dentre os julgados, 29 foram condenados pela prática dos crimes de formação de quadrilha, sob forma de organização criminosa, e tentativa de furto duplamente qualificado, a penas variaram entre 4 anos e 1 mês a 11 anos, 8 meses e 10 dias de reclusão, conforme sua culpabilidade, grau de participação no crime, a existência de antecedentes criminais e o fato de terem ou não confessado a participação no crime. Foi absolvida a esposa de um dos foragidos, cuja função era lavar roupas e preparar comida para a quadrilha. Atualmente, nenhum réu cumpre pena exclusivamente por esse processo. Como o tempo máximo fixado pela Justiça foi de cerca de 11 anos e 8 meses, o cumprimento dessa sanção criminal foi finalizado entre 2011 e 2018, considerando benefícios penais como progressão para o regime semiaberto/aberto e remição de pena.