
Poucos eventos culturais brasileiros conseguem atravessar mais de meio século preservando relevância artística e capacidade de renovação.
O Festival de Cinema de Gramado chega à sua 54ª edição, entre 12 e 22 de agosto, como uma exceção rara. Em um cenário de profundas mudanças na produção, na circulação e no consumo do audiovisual, o encontro da Serra Gaúcha permanece como o espaço em que o cinema brasileiro se apresenta ao país e, muitas vezes, ao mundo, pela primeira vez.
Sua trajetória ininterrupta é um dos maiores patrimônios da cultura nacional. Mais do que resistir às sucessivas transformações do audiovisual, Gramado consolidou-se como um termômetro das inquietações estéticas, políticas e sociais do cinema brasileiro.
Ao longo de cinco décadas, o festival acompanhou a redemocratização, as crises de financiamento, a retomada do cinema nacional, a expansão das coproduções internacionais. Mais recentemente, participa do diálogo entre as salas de exibição, as plataformas de streaming e as novas formas de produção seriada.
Essa vocação se confirma na programação de 2026, construída sobre um conjunto expressivo de obras inéditas.
A abertura oficial será com “Antártida”, de Bruno Safadi, thriller psicológico ambientado em uma base científica brasileira no continente gelado.
O isolamento extremo torna-se metáfora para discutir violência, relações de poder e a experiência feminina em um ambiente marcado pela tensão permanente.
Reunindo Andrea Beltrão, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, Antonio Calloni e Lázaro Ramos, o filme também evidencia o investimento crescente da indústria brasileira em narrativas de gênero aliadas à sofisticação técnica.
Outro momento emblemático será a pré-estreia de “Emergência 53”, série criada por Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington.
Sua exibição no Palácio dos Festivais revela como Gramado amplia seus horizontes ao reconhecer que as fronteiras entre cinema e audiovisual seriado se tornaram cada vez mais fluidas. Em vez de resistir às mudanças do mercado, o festival passa a incorporá-las como parte da própria evolução da narrativa audiovisual brasileira.
As homenagens desenham outro eixo fundamental da programação, que é a preservação da memória. Andrea Beltrão recebe o Troféu Oscarito por uma carreira que transita com rara consistência entre teatro, televisão e cinema. Renata Almeida Magalhães será distinguida com o Troféu Eduardo Abelin pelo trabalho decisivo na consolidação institucional do audiovisual brasileiro, enquanto Marcos Caruso recebe o Troféu Cidade de Gramado.
Já o Kikito de Cristal será entregue conjuntamente a Maria Fernanda Cândido e Selton Mello, dois artistas que representam diferentes gerações e maneiras de compreender o cinema nacional contemporâneo. E ambos ganham as telas e os aplausos no mundo, por seus trabalhos no cinema.
Nas mostras competitivas, o festival reafirma uma característica que se tornou sua marca, desde a 40ª edição, quando assume a nova curadoria do evento.
Começou então a saga de reunir filmes que dialogam diretamente com os dilemas do Brasil contemporâneo, sem afastar público e distribuidores. De lá para cá, as produções percorrem temas amplos, mas também urgentes.
Ao mesmo tempo, a produção gaúcha apresenta um mosaico de linguagens que vai da fantasia ao terror, do documentário à ficção científica.
Os curtas, por sua vez, continuam funcionando como um laboratório privilegiado para novas vozes e novas formas de narrar o país.
Mas Gramado já não se limita às sessões do Palácio dos Festivais. O Conexões Gramado Film Market amplia sua atuação como espaço de articulação da indústria, reunindo produtoras, distribuidoras e plataformas em rodadas de negócios. Tudo começa na próxima quarta-feira, dia 12.