
Sob forte esquema de segurança, foi realizado no início da chuvosa tarde de quarta-feira o velório e o sepultamento do menino de três anos que morreu após ser espancado pelo pai, em Viamão. A cerimônia ocorreu de forma reservada no Cemitério Municipal e teve acesso restrito, com a presença apenas de pessoas previamente autorizadas.
A mãe da criança, que está presa preventivamente e também é investigada no caso por omissão, chegou ao local pouco depois das 14h, escoltada por três viaturas da Polícia Penal. Além da escolta penitenciária, equipes da Brigada Militar e da Guarda Municipal cercaram o cemitério para evitar qualquer incidente. Os portões permaneceram fechados durante toda a cerimônia, e a imprensa não teve acesso ao interior do local.
A mulher permaneceu por menos de 15 minutos ao lado do caixão do filho. Inicialmente, apenas ela, uma de suas advogadas, uma líder religiosa e um representante do Ministério Público foram autorizados a acompanhar a despedida. Após sua saída por um portão dos fundos do cemitério, um pequeno grupo formado por pouco mais de uma dezena de pessoas, formado pelos advogados de defesa, integrantes da comunidade e representantes do Conselho Tutelar, entre outras pessoas, pôde ingressar para acompanhar a cerimônia.
Do lado de fora, o clima era de silêncio e comoção, mas de movimentação discreta. O único momento de tensão ocorreu na chegada da investigada, quando uma mulher rompeu o silêncio e dirigiu gritos à mãe da criança.
Moradora do bairro Tarumã, Rosane Heisser contou que decidiu ir ao cemitério após acompanhar o caso nos últimos dias. “Eu fiquei muito revoltada, desde ontem, com a liberação da participação dela. Não sabia se era aqui, mas resolvemos vir conferir”, afirmou.
Ela disse que pretendia apenas acompanhar a despedida e que ficou frustrada por não conseguir entrar no cemitério. “Fiquei chateada de não conseguir entrar para dar uma olhadinha. Me sensibilizei pela história. Sou mãe e tenho um neto que vai fazer três anos. A gente vê o tamanho da criança e pensa em muita coisa”, desabafou.
Ainda emocionada, Rosane afirmou que os gritos direcionados à investigada foram um impulso. “Foi um desabafo, mas eu queria mais. Queria que ela entrasse caminhando. Eu não ia fazer nada, mas ela tinha que ouvir”, disse.
A liberação do corpo havia sido autorizada pela Justiça após o reconhecimento oficial ser realizado por meio de exame papiloscópico, dispensando a necessidade de a mãe comparecer ao Departamento Médico-Legal. Também por decisão judicial, ela recebeu autorização para deixar temporariamente o presídio e participar da despedida do filho, sob escolta e com rígidas medidas de segurança.
As investigações da Polícia Civil seguem em andamento para esclarecer todas as circunstâncias do caso. O pai e a mãe permanecem presos preventivamente.
Durante a breve cerimônia, a mãe pôde ser acompanhada apenas pela advogada Isabel Cochlar que, por ter mais facilidade com o inglês e, com isso, ter tido mais contato com a mulher, foi a escolhida. Em frente ao cemitério, os outros dois advogados de defesa da mulher concederam entrevistas e reafirmaram que a estratégia da defesa será demonstrar que a mãe também vivia em situação de violência e controle por parte do marido.
O advogado André von Berg afirmou que a defesa sustenta que a investigada também era vítima das agressões e do controle exercido pelo companheiro. “Nós sustentamos que a Maiana é tão vítima quanto todas essas crianças, inclusive como o Oliver. Temos relatos de várias testemunhas que disseram que ela era totalmente subjugada e dominada. E o interessante é que não fomos nós que procuramos essas testemunhas. Elas vieram até nós para dizer isso”, afirmou.
Segundo ele, testemunhas relataram que a mulher não tinha autonomia dentro da própria casa. “Ela era tão subjugada que não podia falar quando queria. Só podia falar quando ele autorizava”, acrescentou.
A advogada Juliana Braun Martins afirmou que a defesa também pretende levar ao inquérito elementos que, na avaliação dela, demonstram que a investigada vivia em contexto de violência doméstica. “Tem fatos que demonstram que a Maiana também era vítima de violência doméstica. Inclusive, hoje tivemos uma reunião com o Ministério Público para apresentar esses elementos, que serão trabalhados durante o inquérito”, disse.
Ela também destacou que, ao longo dos anos, a família viveu em áreas rurais e cidades pequenas, o que, segundo a defesa, dificultava o contato com outras pessoas. “Todos os lugares por onde eles passaram geralmente eram zonas isoladas, com poucos vizinhos e poucas casas. Essa família sempre buscava locais mais afastados”, disse Juliana.
Os advogados informaram ainda que a prioridade da defesa, até esta quarta-feira, era garantir judicialmente a participação da mãe no sepultamento. Agora, a intenção é analisar os elementos produzidos na investigação e, posteriormente, avaliar um pedido de revogação da prisão preventiva.
Além disso, a defesa informou ter solicitado ao Ministério Público que o caso seja analisado sob a perspectiva de gênero. “Existe um protocolo para esse tipo de análise e entendemos que esse caso precisa ter esse olhar sensível”, completou a advogada.