Terça, 28 de Julho de 2026
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A dor no joelho que o idoso confunde com artrose e que tem outra origem

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Por: Lucas
09/06/2026 às 17h05
A dor no joelho que o idoso confunde com artrose e que tem outra origem
Pexels

No inverno gaúcho, quando a temperatura na Serra despenca e o frio toma conta de Caxias, Bento Gonçalves e da região metropolitana de Porto Alegre, as queixas de dor nas articulações se multiplicam nos consultórios.

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Joelho que incha, que dói ao dobrar, que trava pela manhã. A explicação que a maioria das pessoas mais velhas ouve, ou imagina, é quase sempre a mesma: artrose, o desgaste natural da idade.

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Em parte dos casos, porém, a causa é outra. Uma doença pouco conhecida fora dos consultórios de ortopedia e reumatologia provoca exatamente os mesmos sintomas e responde por uma fatia importante das crises de joelho inchado em quem passou dos 60 anos.

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O nome é condrocalcinose, e ela tem a particularidade de se acumular silenciosamente, sem dar sinal, até que uma crise aguda denuncie sua presença.

O problema não está apenas na doença em si. Está no tempo que se perde até chegar ao diagnóstico certo. Um joelho tratado como artrose comum por anos pode estar, na verdade, sofrendo com um mecanismo diferente, que pede acompanhamento e condutas próprias.

O que é a condrocalcinose

A condrocalcinose é o depósito de cristais de pirofosfato de cálcio na cartilagem das articulações. Esses cristais se acumulam principalmente em estruturas como os meniscos e a membrana que reveste a articulação, e podem irritar o joelho a ponto de provocar inflamação.

O resultado costuma ser dor, inchaço, rigidez e dificuldade para dobrar a perna ou caminhar. Em muitas pessoas, no entanto, os cristais ficam ali sem causar qualquer incômodo, e o achado só aparece por acaso, numa radiografia pedida por outro motivo.

Os Manuais MSD, referência médica internacional, registram que a condrocalcinose sem sintomas se torna comum com o avanço da idade, atingindo sobretudo os joelhos, o quadril, o punho e a coluna. O joelho é a articulação mais frequentemente acometida.

A condição também é conhecida por seus outros nomes. Quando há sintomas e inflamação ligados aos cristais, fala-se em doença por depósito de pirofosfato de cálcio, abreviada como CPPD.

E a crise aguda, de início rápido, com o joelho quente e inchado, recebe o nome de pseudogota, justamente por lembrar uma crise de gota verdadeira.

Por que ela é mais comum do que se imagina

Os números surpreendem quem nunca ouviu falar da doença. A Sociedade Brasileira de Reumatologia aponta que a pseudogota é muito frequente entre idosos, com prevalência de cerca de 3% após os 60 anos. Esse percentual sobe a cada década de vida e chega a aproximadamente 50% das pessoas aos 90 anos.

Outras referências confirmam a relevância do problema. Materiais médicos brasileiros classificam a doença por deposição de pirofosfato de cálcio como a quarta condição musculoesquelética mais frequente, com prevalência estimada entre 5% e 10% da população, e reforçam que a incidência aumenta com a idade, sendo o joelho a articulação mais atingida.

No Brasil, um estudo de grande porte ajudou a dimensionar o quadro. O ELSA-Brasil Musculoesquelético, conduzido com servidores públicos e publicado em periódico científico nacional, analisou radiografias de joelho de mais de 2,7 mil participantes para descrever a prevalência da condrocalcinose e sua relação com fatores como idade, diabetes, hipertensão e doença renal crônica. A pesquisa olhou com atenção especial para o grupo acima dos 60 anos, faixa em que o achado se concentra.

Para uma região como a Serra Gaúcha, marcada pela colonização italiana e por uma população que envelheceu junto com suas cidades, esse perfil etário tem peso concreto.

Caxias do Sul e os municípios vizinhos têm parcela expressiva de moradores na faixa em que a condrocalcinose deixa de ser rara.

Por que tanta gente demora a descobrir

"O grande obstáculo da condrocalcinose é a confusão com outras doenças. A crise de pseudogota imita a gota clássica. O quadro crônico imita a artrose. E como artrose e condrocalcinose costumam andar juntas em pessoas idosas, o depósito de cristais acaba ofuscado pelo diagnóstico mais óbvio", afirmou especialista do COE, referência em ortopedia em Goiânia.

A diferença entre as condições não é detalhe técnico. Na gota, os cristais são de ácido úrico. Na condrocalcinose, são de pirofosfato de cálcio.

As crises podem parecer iguais por fora, mas as causas e parte da prevenção mudam, o que altera a conduta. Tratar uma como se fosse a outra significa, muitas vezes, atacar o sintoma sem entender o mecanismo.

Há ainda o agravante das formas silenciosas. Quando os cristais não provocam dor, o paciente não procura ajuda, e a doença avança sem que ninguém perceba. Só quando uma crise aguda aparece, com o joelho subitamente quente, inchado e difícil de apoiar, é que a investigação começa.

Para quem quer entender melhor os sinais, o diagnóstico e as opções de tratamento, saiba mais sobre condrocalcinose no joelho em material produzido por especialistas em ortopedia de joelho.

Como o diagnóstico é confirmado

O diagnóstico combina história clínica, exame físico e exames complementares. O objetivo é duplo: confirmar a presença dos cristais e excluir outras causas de joelho inchado e dolorido, entre elas a infecção, que exige tratamento urgente.

A radiografia é o exame que dá nome à doença. Nela aparecem as calcificações na cartilagem, as linhas e pontos de cálcio que caracterizam a condrocalcinose. O ultrassom ajuda a detectar derrame articular e depósitos, além de orientar punções quando necessário.

O exame mais direto, porém, é a análise do líquido sinovial. Por meio de uma punção, retira-se o líquido de dentro da articulação para procurar os cristais ao microscópio. É esse exame que diferencia com segurança a condrocalcinose da gota e que descarta a hipótese de infecção.

Exames de sangue completam a investigação, sobretudo em pessoas mais jovens ou com crises repetidas, para rastrear condições associadas como alterações da tireoide e da paratireoide.

O que o tratamento pode e o que não pode fazer

Aqui está um ponto que costuma frustrar quem recebe o diagnóstico. Não existe, até hoje, tratamento capaz de dissolver os cristais já depositados na cartilagem. Diferente da gota, em que medicamentos reduzem o ácido úrico, na condrocalcinose o foco é outro.

O tratamento mira controlar as crises, reduzir a inflamação e preservar a função do joelho. Na fase aguda, as medidas mais usadas incluem repouso relativo, redução temporária de carga, gelo por curtos períodos, anti-inflamatórios e, em situações selecionadas, a colchicina.

Quando há acúmulo importante de líquido, a punção alivia a pressão. A infiltração intra-articular entra em casos indicados, para reduzir a inflamação local.

A prevenção de novas crises passa por reabilitação com fisioterapia, fortalecimento muscular, ajuste das atividades para reduzir impacto, controle do peso e tratamento das condições metabólicas associadas.

Cada peso extra no corpo se traduz em sobrecarga ampliada sobre o joelho, o que torna o controle do peso uma das medidas mais eficazes ao alcance do paciente.

Em parte dos casos, quando a condrocalcinose coexiste com artrose avançada, com desgaste importante, travamento frequente ou perda de função que não responde ao tratamento clínico, o especialista pode avaliar opções cirúrgicas, definidas conforme cada situação.

Quando a dor no joelho pede avaliação

Nem toda dor no joelho exige corrida ao consultório, mas alguns sinais não devem ser ignorados, principalmente em pessoas acima dos 50 anos. Dor intensa com inchaço súbito e calor importante, febre associada, incapacidade de apoiar o pé no chão ou piora rápida da mobilidade pedem avaliação sem demora.

A presença de febre junto com o joelho inchado merece atenção redobrada, porque pode indicar infecção, situação que precisa ser descartada com urgência. É exatamente nesses momentos que a análise feita por um ortopedista treinado em diagnóstico diferencial faz diferença, separando o que é crise de cristais do que é uma emergência.

Para o morador da Serra Gaúcha, do Vale do Sinos ou da capital que convive com dores recorrentes no joelho e já ouviu apenas que é coisa da idade, vale considerar uma segunda olhada. A artrose pode ser parte da história, mas não necessariamente toda ela.

Reconhecer a condrocalcinose por trás do quadro muda o rumo do acompanhamento e ajuda a transformar crises frequentes e intensas em episódios mais raros e controlados, com mais qualidade de vida no dia a dia.