
O setor de vestuário do Rio Grande do Sul está surpreendendo os próprios lojistas. As vendas de roupas de frio — casacos, jaquetas, fleeces e botas — cresceram 38% nos primeiros cinco meses de 2026 em comparação ao mesmo período do ano passado, segundo dados do Sindilojas RS. E o inverno oficial ainda não começou.
Em Caxias do Sul, Marcela Fontana, de 34 anos, sentiu na própria carteira o que os números confirmam. Funcionária de uma cooperativa na Serra Gaúcha, ela antecipou a compra do casaco e das botas da família inteira ainda em abril. "A gente viu que o frio veio diferente esse ano, mais cedo e mais forte. Não quis esperar chegar em julho sem nada", conta. Ela gastou R$ 480 para equipar ela, o marido e o filho de 8 anos — e diz que valeu cada centavo.
A decisão de Marcela não foi isolada. Comerciantes de toda a região Sul do estado relatam filas nos provadores e estoques que esgotaram semanas antes do esperado. Em Gramado, uma das lojas de artigos de inverno mais tradicionais da cidade esgotou o estoque de jaquetas femininas em menos de dez dias de maio.
O fenômeno tem explicação no comportamento climático deste ano. As frentes frias que atingiram o RS a partir de março foram mais intensas e frequentes do que a média histórica, antecipando a sensação de inverno em pelo menos três semanas. Para quem vende roupas, foi como ganhar um mês extra de temporada.
Mas não é só o clima que explica o salto nas vendas. Os lojistas apontam também uma mudança no comportamento do consumidor gaúcho após os eventos climáticos extremos de 2024. "O gaúcho aprendeu a se preparar antes. Depois das enchentes, ficou claro que esperar na última hora pode ser tarde demais", analisa Roberto Schäfer, presidente do Sindilojas de Bento Gonçalves.
O ticket médio também subiu. Se em 2025 o gasto médio por cliente em roupas de inverno girava em torno de R$ 210 por peça, em 2026 esse número já está em R$ 267 — alta de 27%. Os consumidores estão comprando menos peças, mas apostando em qualidade maior. Casacos com tecnologia de isolamento térmico e jaquetas impermeáveis lideram as buscas nas lojas físicas e online do estado.
Nas cidades do interior, o movimento também é expressivo. Em Santa Maria, Passo Fundo e Pelotas, os lojistas relatam que a busca por cobertas, edredons e pijamas de flanela quase dobrou em relação a abril do ano passado. O frio que chegou antes da hora levou as famílias a revisar o armário de inverno mais cedo — e, quem não tinha o que precisava, foi direto às lojas.
Para os empreendedores do setor, o momento é de otimismo cauteloso. A demanda aquecida ajuda a compensar os custos mais altos de importação de tecidos e matéria-prima. Mas os estoques precisam ser repostos rapidamente, e a cadeia de fornecimento está sob pressão para atender o ritmo das vendas.
Se você ainda não fechou o armário de inverno da família, especialistas do setor indicam que comprar agora — antes do pico de julho — ainda é a melhor estratégia para encontrar variedade e evitar preços inflacionados no auge da temporada. A dica é simples, mas pode fazer diferença de R$ 100 ou mais por peça para quem deixar para a última hora.