Quarta, 29 de Julho de 2026
Publicidade

Governo do Estado apresenta Boletim Epidemiológico de Mortalidade Materna, Infantil e Fetal do RS

A Secretaria da Saúde (SES) disponibilizou, na quinta-feira (28/5), o Boletim Epidemiológico de Mortalidade Materna, Infantil e Fetal do RS 2026, p...

Por: Redação Acontece no RS Fonte: Secom RS
29/05/2026 às 16h08
Governo do Estado apresenta Boletim Epidemiológico de Mortalidade Materna, Infantil e Fetal do RS
Apresentação ocorreu no evento "Nenhuma a menos – construindo caminhos para reduzir a mortalidade no ciclo gravídico-puerperal” -Foto: Mariana Ribeiro/Ascom SES

A Secretaria da Saúde (SES) disponibilizou, na quinta-feira (28/5), o Boletim Epidemiológico de Mortalidade Materna, Infantil e Fetal do RS 2026, produzido pelo Departamento de Políticas de Atenção Primária e Políticas de Saúde (Dapps). O documento foi apresentado no evento em alusão ao Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher e ao Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, que ocorreu na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFSCPA).

Continua após a publicidade

Com o tema “Nenhuma a menos – construindo caminhos para reduzir a mortalidade no ciclo gravídico-puerperal”, o encontro foi organizado pela SES, em parceria com o Conselho Regional de Enfermagem (Coren/RS), a Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo/RS) e o Fórum Aborto Legal RS, com apoio do Fundo de Investimento Social Elas+ e da UFSCPA.

Continua após a publicidade

Presente na mesa de abertura, a coordenadora dos Ciclos de Vida do Dapps, Rosângela Moreira, citou os impasses e avanços do Estado no assunto. Ela destacou as conquistas obtidas pelo governo gaúcho, que incluem o financiamento para realização de aborto legal por meio do Programa Assistir.

Continua após a publicidade

“Também precisamos ressaltar os incentivos financeiros destinados aos serviços de ambulatório de gestação de alto risco, de maternidade de risco habitual, de maternidade de alto risco e ambulatório de egresso de unidade de terapia intensiva neonatal, bem como o incentivo suplementar diferencial para maternidade completa”, acrescentou.

Rosângela também chamou a atenção para disponibilização do boletim, importante instrumento para o debate da temática entre gestores, profissionais de saúde e sociedade. Considerado um dos principais desafios de saúde pública no Brasil, a mortalidade materna desperta preocupação do Sistema Único de Saúde (SUS) e acende o debate sobre quais são os caminhos para a redução dos índices e o fortalecimento da atenção à saúde reprodutiva no Estado.

Boletim epidemiológico

Em um dos painéis realizados no encontro, o médico pediatra da SES, Paulo Sérgio Mario, comentou os dados do boletim (que apresenta informações consolidadas de 2024 e preliminares de 2025) e destacou o papel dos comitês de enfrentamento do problema.

Mario explicou que, embora em números absolutos a população branca seja muito maior no RS, a razão matemática de mortalidade materna é mais elevada entre mulheres pretas (124,63) e indígenas (125,79) quando comparadas às mulheres brancas (39,26). Os dados, segundo ele, evidenciam importantes iniquidades raciais na mortalidade materna no Estado, que podem estar relacionadas a barreiras de acesso estruturais e territoriais.

As estatísticas sobre mulheres indígenas apontam para falhas graves e pontuais na linha de cuidado, associadas a barreiras geográficas, culturais e de acesso oportuno aos serviços. No caso das mulheres pretas, o número reflete um padrão estrutural, relacionado ao racismo institucional, à pior qualidade do cuidado, à violência obstétrica e a desigualdades sociais persistentes.

Outro dado preocupante mostra que, em 2024, de 31 gestantes que apresentavam risco obstétrico pré-natal, somente 18 foram devidamente encaminhadas para ambulatório de gestação de alto risco e, dessas, apenas 11 terminaram, de fato, assistidas, indicando uma falha no serviço em rede. Mario ressaltou a necessidade de estratificação de risco no início da gestação (risco habitual ou alto risco) como estratégia fundamental para possibilitar estrutura multidisciplinar, atendimento mais qualificado e redução da mortalidade materna e infantil.

O Boletim Epidemiológico de Mortalidade Materna, Infantil e Fetal do RS busca subsidiar os profissionais de saúde – especialmente médicos, enfermeiros e gestores de saúde – no desenvolvimento de ações efetivas para redução da mortalidade. Para isso, aborda a implementação de estratégias de enfrentamento e prevenção da ocorrência de óbitos evitáveis – que seguem sendo um desafio para os serviços de saúde e a sociedade como um todo.

Nesse cenário, Mario destacou que os comitês de morte materna representam instrumento de avaliação permanente e de acompanhamento das políticas de saúde da mulher. Entre as ações estão:

  • a proposição de estratégias para redução da mortalidade materna;
  • o fortalecimento de redes regionalizadas de atenção à saúde;
  • o aprimoramento da atenção básica;
  • e os cuidados durante gestação, parto, puerpério e nascimento, bem como na saúde sexual e reprodutiva.

Reflexões sobre a mortalidade materna

Durante toda a manhã, outros painéis permitiram aos participantes refletirem sobre a complexidade da mortalidade materna como problema de saúde pública:

  • “Protocolos de enfermagem na atenção primária à saúde e o papel do enfermeiro na saúde reprodutiva”, apresentado por Valdecir da Costa, do Coren/RS;
  • “Aborto legal em casos de risco à vida: panorama atual”, apresentado por Camila Giugliani, do Fórum Aborto Legal RS;
  • “Práticas assistenciais e o impacto do enfermeiro obstetra na redução da mortalidade materna, apresentado por Tatiane Trindade”, da Abenfo/RS;
  • “Organização dos fluxos assistenciais e atenção à interrupção gestacional prevista em lei”, apresentado por Camila Dall’Aqua, da SES.

Os dados e os conteúdos apresentados demonstraram uma realidade marcada por um número significativo de mortes evitáveis durante o ciclo gravídico-puerperal, indicando um desafio que se inicia no pré-natal e se estende até o puerpério.

Nesse sentido, foram apontadas questões como a burocratização de consultas e procedimentos e como cada atraso no sistema pode resultar em uma vida perdida. Da mesma forma, foi debatida a importância do letramento em saúde como um aspecto crucial para que gestantes e familiares compreendam orientações com clareza.

Também foram analisados os três casos de interrupção da gravidez previstos em lei e como a atenção primária é a porta de entrada para esse tipo de atendimento. No caso do estupro, foi destacado que existem protocolos específicos para os casos de violência sexual e que a oferta do aborto legal está incluída na lista de direitos.

Quando o assunto é risco de vida para a gestante, o que se observa é que se trata de um conceito amplo que a lei não especifica, de tal modo que a decisão final fica a cargo da mulher após receber todas as informações e orientações sobre o próprio caso. Já nos casos de anencefalia, uma malformação congênita fetal, é conferido à gestante o direito de escolher entre seguir ou não com a gestação.

Em todas as situações, reforçou-se a necessidade de se acolher a gestante de forma ética e respeitosa, evitando a revitimização e novos traumas. Estratégias simples – como praticar a escuta ativa, perguntar se a gravidez foi desejada e encaminhar para os trâmites legais sem morosidade – podem fazer a diferença.

Nos casos em que há interesse da gestante em realizar o aborto legal, outro mecanismo aliado é a realização de ecografia com som desligado e sem mostrar a tela para a paciente, evitando, assim, constrangimento e coação diante da decisão tomada.

Em sua apresentação, Camila mostrou que, entre 2019 e 2024, a violência sexual aparece como principal causa de interrupções de gestação no RS. Nesse sentido, ela salientou que a notificação de violência para fins epidemiológicos não é sinônimo de acionamento da polícia.

“A notificação serve para investigação epidemiológica e melhoramento das políticas públicas. É muito importante termos um olhar atento e realizarmos intervenções no tempo oportuno. Da mesma fora, é preciso articulação com os movimentos sociais para que tenhamos condições de trabalhar essa pauta dentro da secretaria, assegurar o planejamento reprodutivo e ajustar as fragilidades dos fluxos”, explicou Camila.

Aborto legal no Estado

O RS possui sete serviços de referência para realização do aborto legal, mas ainda não atende a todas as macrorregiões. Por isso, muitas gestantes precisam se deslocar até os municípios que disponibilizam o serviço.

Um dos avanços promovidos pela SES é possibilidade de utilização, pelas interessadas, da inteligência artificial do Estado, a GurIA. Quando questionada, a ferramenta auxilia a usuária e informa qual é o passo a passo a ser seguido. Além disso, para ampliar o acesso à informação, também estão sendo distribuídos cartazes informativos, produzidos em parceria com o Fórum Aborto Legal RS, para a atenção primária à saúde.

Entre os próximos objetivos, estão:

  • a concretização do financiamento do Assistir para implantação de serviços em todas as macrorregiões;
  • a garantia contratual de disponibilidade de não objetores nos plantões (quando um médico alega objeções pessoais impeditivas para realização de aborto), o que obriga as instituições hospitalares a terem outro profissional disponível para realizar o procedimento;
  • a previsão de item em contrato que garanta atuação dos serviços como matriciadores para a rede;
  • e a adesão a instrumento de monitoramento de indicadores que permita identificar o motivo do aborto por razões médicas, com o fim de diferenciar os três tipos previstos.

Texto: Mariana Ribeiro/Ascom SES
Edição: Secom