
Quem foi ao mercado nos últimos meses sentiu no bolso o que os números confirmam: o café nunca esteve tão caro na história recente do Brasil. O produto que não falta na mesa de praticamente nenhuma família gaúcha virou sinônimo de preocupação — e muita gente já está cortando xícaras para fechar as contas no fim do mês.
Mas afinal, por que o café está caro? A resposta não é simples, e envolve uma cadeia de fatores que vai do clima nas lavouras mineiras até a cotação do dólar e as tarifas internacionais. Entender o que está acontecendo ajuda a não cair em pegadinhas na hora das compras — e a saber o que esperar nos próximos meses.
Em janeiro de 2025, a saca de 60 kg de café arábica — a variedade mais produzida no país — chegou a ser comercializada a R$ 2.333, o maior valor registrado desde 1997, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP).
Para o consumidor comum, isso se traduziu em uma alta de quase 78% no preço do café moído nos supermercados em 12 meses, de acordo com o IBGE. O quilo que custava em torno de R$ 32 há dois anos chegou a R$ 62,83 nas prateleiras.
O impacto não ficou só no preço. Uma pesquisa da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), realizada com 4.200 pessoas em todo o país, revelou que 24% dos brasileiros já reduziram o consumo da bebida por causa dos valores elevados. É a primeira vez em décadas que o Brasil, maior produtor e consumidor de café do mundo, vê tanta gente abrindo mão do hábito.
Tudo começa no campo. Entre 2024 e 2025, o Brasil passou por um período de seca severa durante a florada do café — a fase mais crítica da lavoura — seguida de altas temperaturas que prejudicaram o desenvolvimento dos grãos.
No Cerrado Mineiro, as geadas causaram um prejuízo de quase 25 mil toneladas de café arábica, segundo especialistas do setor. A área plantada no país caiu 1,5%, e a produção recuou 4,4% em relação ao ciclo anterior.
Menos café no campo significa menos grão disponível para vender. E quando a oferta cai, o preço sobe — é a lei básica do mercado agindo sobre uma das commodities mais consumidas do planeta.
O cafeeiro tem uma característica natural chamada bienalidade: ele alterna anos de produção alta com anos de produção mais baixa. Em ciclos negativos, a oferta de grãos já é menor por natureza — e qualquer problema climático adicional agrava ainda mais o cenário.
A safra 2024/2025 coincidiu exatamente com um ciclo negativo, o que amplificou os efeitos da seca e do calor sobre os volumes produzidos.
O café é uma commodity global — seu preço é negociado em dólar nas bolsas internacionais. Quando o real se desvaloriza frente ao dólar, os produtores brasileiros preferem exportar, já que recebem mais em moeda estrangeira.
Com menos produto disponível no mercado interno e mais café sendo vendido para fora, o preço doméstico dispara. Em 2024 e 2025, a cotação do dólar em patamares elevados foi um dos principais combustíveis da alta nas prateleiras brasileiras.
"Como o Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café, o preço que pagamos aqui reflete, em grande parte, a cotação internacional multiplicada pela taxa de câmbio", explicou o professor Eugenio Stefanelo, doutor em engenharia da produção e ex-secretário da Agricultura do Paraná.
Enquanto a produção caía, o consumo mundial seguia na direção oposta. O consumo global de café está previsto em 169,4 milhões de sacas de 60 kg no ciclo 2025/2026, segundo a Conab — um novo recorde histórico na demanda internacional.
Países asiáticos, em especial China e Vietnã, ampliaram significativamente o hábito de beber café nos últimos anos. Essa demanda extra pressiona os estoques globais e eleva as cotações para todos os países, inclusive o Brasil.
Em 2025, um novo fator entrou no jogo: os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% sobre a importação de café brasileiro, gerando incerteza nos fluxos comerciais globais.
A medida, adotada pelo governo Trump, criou um efeito cascata: traders passaram a segurar estoques, custos logísticos aumentaram, e o mercado ficou ainda mais volátil. O resultado chegou diretamente à gôndola dos supermercados brasileiros.
No Rio Grande do Sul, onde o café faz parte da cultura tanto no chimarrão compartilhado quanto na pausa do trabalho, a alta dos preços é sentida no cotidiano de forma direta.
Consumidores de Passo Fundo, Santa Maria, Porto Alegre e do interior gaúcho relatam que passaram a buscar marcas mais baratas, comprar em atacarejo para economizar na embalagem maior, ou simplesmente reduzir as xícaras diárias.
Pequenos estabelecimentos — padarias, lanchonetes e bares — também sentem o impacto. Alguns repassaram o aumento ao preço do cafezinho, outros absorveram parte da alta para não perder clientes, sacrificando a margem de lucro.
Há uma luz no fim do túnel — mas não é para agora.
Estimativas recentes indicam que a colheita de café do Brasil em 2026 pode alcançar entre 66 e 70 milhões de sacas, o que representaria um recorde histórico de produção. Isso acontece porque o ciclo bienal deve entrar na fase positiva, com condições climáticas mais favoráveis nas lavouras.
No entanto, a Cooxupé, maior cooperativa de café do Brasil, projeta que as exportações devem cair 10% em 2026 — reflexo da colheita menor de 2025 ainda sendo processada. Ou seja: o mercado ainda vai sentir os efeitos da crise atual por mais alguns meses.
Para o consumidor, a orientação dos especialistas é monitorar os preços com atenção, aproveitar promoções em atacarejo e, se possível, comprar em quantidade quando houver oportunidade — já que a tendência de curto prazo ainda é de preços altos ou em alta.
Algumas dicas práticas podem ajudar a manter o hábito sem comprometer o orçamento:
Por que o café está caro? Porque tudo foi contra ao mesmo tempo: clima ruim nas lavouras, ciclo natural de baixa produção, dólar alto, demanda global recorde e incertezas comerciais internacionais. Uma tempestade perfeita que jogou os preços nas alturas.
A boa notícia é que o ciclo deve se inverter em 2026, com previsão de safra recorde no Brasil. Mas até lá, o cafezinho vai continuar pesando um pouco mais no bolso de quem não abre mão da bebida preferida do país.
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