
Uma esquina de localização privilegiada na região central de Porto Alegre chama atenção pela sua ociosidade e intriga tanto moradores quanto comerciantes do entorno. Há quase seis anos, o prédio de um antigo hotel no encontro da Avenida Loureiro da Silva com a Rua General Lima e Silva está desocupado.
A empresa responsável pelo imóvel afirma ter projetos para o futuro do prédio. Enquanto os planos não saem do papel, pequenas mudanças têm sido feitas no espaço, a fim de contornar a consequência de tanto tempo em desuso.
Sem hóspedes no lado de dentro, o edifício possui uma calçada larga com uma grande marquise, atraindo pessoas em situação de rua que procuram abrigo da chuva, do frio e do calor.
— De dia, não tem problema nenhum. Mas, de noite, a gente vê que tem pessoas desabrigadas. Eu procuro não passar por aqui, por segurança. Mas eu vejo os dois lados, tanto o do prédio quanto o dos desabrigados. Aqui a gente tem um símbolo dessa tensão entre a iniciativa privada e as questões sociais, a improvisação de moradia — relata a fonoaudióloga Renelle Millette, 46 anos, que mora nas proximidades do prédio.
Ranelle acompanhou a tentativa frustrada de colocarem grades para dificultar o acesso das pessoas em situação de rua — mas que também bloqueavam a circulação dos pedestres na calçada e precisaram ser retiradas — e agora a recente colocação de tijolos nos recuos que eram utilizados pelos desabrigados.
Antes desse cenário de aparente abandono, a construção de 13 andares funcionava como uma unidade da rede Master Hotéis. A empresa não confirmou quando as atividades chegaram ao fim no local, mas as últimas menções públicas do empreendimento informavam que, devido à pandemia do coronavírus, a agenda de reservas seria fechada a partir do dia 25 de março de 2020.
Apesar da liberação das atividades e da retomada do setor hoteleiro depois da covid-19, os grupos Astir e Isdra, que são proprietários da rede Master e do prédio em questão, optaram por não reabrir o empreendimento.
— Nosso grupo é de capital fechado. Nós temos uma rede hoteleira e, praticamente duas quadras dali, temos um outro hotel que funciona plenamente. A pandemia nos atingiu, atingiu todas as redes hoteleiras, e desde então não se justificava ter um hotel funcionando naquele âmbito, mudou muito o comportamento do público — explicou o diretor da Astir, Carlos Paulo Fortuna.
No limite entre o Centro Histórico e a Cidade Baixa, a edificação é vizinha de supermercados, farmácias, restaurantes, escolas, hospital e universidade. Com tanto atrativo no entorno, o objetivo da incorporadora é transformar o antigo hotel em um prédio residencial.
A ideia existe pelo menos desde outubro de 2023, quando uma análise de projeto arquitetônico foi solicitada junto à Secretaria do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre (Smamus). De acordo com os registros públicos, o trâmite foi encerrado e aprovado em fevereiro de 2025, quando foi paga a última taxa necessária.
Os dados disponibilizados também revelam que o projeto prevê a criação de 144 unidades habitacionais e que, em média, cada uma deve ter 38 metros quadrados. De acordo com Fortuna, a ideia é transformar o edifício em um residencial moderno com studios.

Apesar da aprovação da prefeitura, ainda não há previsão de quando a obra deve iniciar no local. O diretor explica que o projeto está em fase de arrecadação de recursos e que é preciso um mercado favorável para lançar o empreendimento. A expectativa é que a mudança aconteça em curto ou médio prazo, entre 2026 e 2027.
— Ainda vamos levar o tempo para fazer todos os trâmites para a elaboração do funding, como pesquisa de mercado. E estamos aguardando um momento oportuno no mercado imobiliário, que hoje não está respondendo muito bem à Selic. As taxas estão muito altas, então isso vai muito da nossa sensibilidade de fazer esse lançamento no momento certo. Mas a reformulação está aprovada e, de certa forma, vai valorizar bastante a região — contextualiza Fortuna.
O fim das atividades da rede Master no endereço atingiu tanto a segurança dos moradores quanto o movimento no comércio vizinho. O empresário Neuri Ângelo Zambiasi, 62 anos, que possui há 33 anos um restaurante na outra esquina, comentou que, desde o fechamento do hotel, o movimento caiu.
— Para nós, foi ruim porque era muito cliente que vinha, principalmente, quando lotava por causa da Expointer, da Semana Farroupilha. Dava muita gente aí. O impacto para nós, não vou dizer bastante, mas foi muito — relata Zambiasi.