
Eram 11h da manhã de domingo quando banhistas da Praia Central de Capão da Canoa testemunharam uma cena revoltante. Um turista de Porto Alegre estacionou sua caminhonete a poucos metros da areia, abriu o porta-malas e começou a despejar sacos de lixo doméstico — com restos de comida, garrafas plásticas e até fraldas usadas — bem ao lado de famílias com crianças. O que ele não esperava: três fiscais ambientais observavam tudo a poucos metros de distância.
Marcos Silva, 42 anos, empresário da capital gaúcha, levou apenas 5 minutos para transformar sua temporada de verão em um prejuízo de R$ 10 mil. O valor da multa aplicada na hora pelos agentes da Secretaria do Meio Ambiente se tornou uma das maiores já registradas no litoral norte gaúcho por crime ambiental individual. Ele ainda precisou recolher todo o lixo de volta, sob vaias e xingamentos de dezenas de veranistas que filmavam a cena.
"Eu não acreditei no que estava vendo. Ele simplesmente jogou aqueles sacos fedorentos na areia, perto das crianças brincando. Foi nojento", desabafou Marina Oliveira, 34 anos, professora de Torres que estava com a família na praia. O vídeo que ela gravou no celular já ultrapassou 2 milhões de visualizações no TikTok e Instagram, com comentários indignados de usuários de todo o Brasil.
A operação de fiscalização da prefeitura estava em ação desde às 9h daquele domingo, justamente para coibir esse tipo de crime que se tornou recorrente no verão. Segundo o coordenador de fiscalização ambiental, João Carlos Ribeiro, o turista despejou aproximadamente 15 quilos de resíduos — incluindo embalagens de fast food, latas de cerveja, restos de churrasco e até um ventilador quebrado. "Foi um dos casos mais descarados que já vi em 12 anos de trabalho. Ele nem tentou disfarçar", relatou o fiscal à reportagem.
A multa de R$ 10 mil foi calculada com base na Lei Federal de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98) e pode ainda dobrar de valor se o autuado não pagar no prazo de 30 dias. Além disso, a Brigada Militar lavrou um Boletim de Ocorrência e o caso foi encaminhado ao Ministério Público. Se condenado criminalmente, Marcos pode pegar de 1 a 3 anos de detenção, segundo advogados especializados em direito ambiental consultados pela reportagem.
Nas redes sociais, a revolta foi imediata e massiva. "Tem que multar em R$ 50 mil e banir esse tipo de gente do litoral gaúcho", escreveu uma internauta em comentário com mais de 8 mil curtidas. Perfis de defesa ambiental do estado compartilharam o vídeo pedindo punição exemplar. Até o prefeito de Capão da Canoa, Amauri Magnus Germano, se manifestou nas redes: "Nossa cidade não é depósito de lixo. Quem não respeita nosso patrimônio natural vai responder com rigor da lei".
Capão da Canoa, a 140 km de Porto Alegre, é o segundo destino mais procurado do litoral gaúcho, atrás apenas de Torres. Com 53 mil habitantes, a cidade recebe mais de 400 mil turistas entre dezembro e março, gerando cerca de 180 toneladas de lixo por dia — quase o triplo do período de baixa temporada. As praias do município são conhecidas pelas dunas preservadas e pela extensa faixa de areia, cenário que atrai famílias e jovens de todo o Rio Grande do Sul.
Procurado pela reportagem, o turista multado não quis se manifestar, mas seu advogado informou que ele vai recorrer da autuação alegando "desproporcionalidade do valor". A defesa alega que o empresário "se confundiu" e achou que estava em um ponto de coleta. Moradores e frequentadores de Capão da Canoa, no entanto, não aceitam a justificativa. "Não existe confusão. O cara quis fazer o que quis. Agora aguenta", comentou um internauta.
O caso reacende um debate antigo no litoral gaúcho: o desrespeito de turistas com o patrimônio ambiental das cidades litorâneas. Em 2024, apenas Capão da Canoa aplicou mais de R$ 800 mil em multas por crimes ambientais na orla — desde descarte irregular de lixo até destruição de dunas. A história de Marcos Silva serve de alerta: a natureza gaúcha não é terra de ninguém, e quem poluir vai pagar caro por isso.