Domingo, 09 de Agosto de 2026
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O capelão e sua jipa mudaram o dia-a-dia da Princesa em favor da ordem

Trocando o gênero das palavras, o que é comum com estrangeiros ao falar o português, ele criou um hiato na vida da cidade, em uma época de exceção....

Por: Redação Acontece no RS Fonte: Prefeitura de Feira de Santana - BA
12/02/2025 às 23h50

Trocando o gênero das palavras, o que é comum com estrangeiros ao falar o português, ele criou um hiato na vida da cidade, em uma época de exceção. Muita gente entrou na ‘jipa’, mas dos males o menor, o ‘capelão’, cercado de versões, fez o papel dele, tornando-se quase uma lenda, sem grandes odisseias. Há tempo para tudo!

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Na vida há tempo para tudo, até porque tudo tem tempo e o tempo muda: todos os seres vivos e até os inanimados, uma vez que mesmo as rochas, as pedras, devido ao longo tempo expostas à erosão, às vezes têm a aparência modificada. Assim, em 1964, com a implantação do governo militar ou regime militar, a vida brasileira pacata e ordeira sofreu profunda modificação no seu padrão habitual, principalmente nas grandes cidades, e Feira de Santana já era assim considerada. A liberdade de pensar, de se expressar e até de se movimentar cessou rapidamente.

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Na cidade, houve algumas prisões, reclusões para interrogatório de pessoas ligadas ou consideradas integrantes da oposição ao governo militar. Todavia, o maior entrave para muitos foi a presença do chamado “capelão”, homem de origem polonesa, russa, alemã, não se sabendo, na verdade, a sua natalidade e sim a sua missão na Cidade Princesa, que era de proceder um patrulhamento ostensivo e intensivo nas ruas da cidade, noite e dia, no banco de um jeep ou a pé, sempre acompanhado de militares e conduzindo, em uma das mãos, uma espécie de cipó.

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Capelão, originariamente, é um clérigo que faz os ofícios divinos em um templo, um homem de Deus, que deve ter um grande coração, no sentido de tratar com amor e bondade os fiéis e as pessoas em geral, mas esse estava fora do contexto. Não viera para orar e sim para disciplinar ao seu modo, colocando ordem onde, na verdade, não havia desordem, salvo algumas manifestações juvenis do azul e branco colegial. Era o tempo de mudança e mudou mesmo.

Feira de Santana passou a viver assustada. Tudo era motivo para uma correria. Os babas (jogos de futebol matinais), espalhados pelas dezenas de campos na parte central da cidade, foram “dizimados”. As bolas de couro, caras e raras na época, eram tomadas e rasgadas. Grupos de três ou quatro rapazes conversando eram um alvo perfeito para a ação do capelão. Vivia-se um tempo romântico, mas o som do violão e as vozes dos seresteiros deixaram de ser ouvidas. A noite ficou vazia!

O ‘capelão’ impunha terror à noite, ao mesmo tempo em que tinha um comportamento até mesmo protetor ao encontrar adolescentes em locais considerados não indicados para eles, como bares e boates. Depois de saber quem era, e onde morava, ele mandava ‘entrar na jipa’ e levava o jovem até a casa da família para entregá-lo aos pais, aos quais fazia sempre uma preleção, orientando como deveriam cuidar dos filhos. Esse lado bom do militar era reconhecido, e vale lembrar que quem andava na linha, comportando-se normalmente ou corretamente, não despertava a atenção do rigoroso militar sobre o qual circulavam versões nunca confirmadas, como, por exemplo, que ele teria sido torturado durante a II Guerra Mundial e que todas as unhas das suas mãos haviam sido arrancadas.

Outra versão aprofundava-se em relação à sua família, citando que seus pais haviam sido torturados e mortos na Europa. Esses relatos ficcionais ou não estimulavam a curiosidade popular e aumentavam o temor de muitos em relação ao militar ou religioso transvestido como tal, para impor o ‘medo ou respeito’ em Feira de Santana. Mas como há tempo para tudo, chegou o dia em que ele saiu da Cidade Princesa, sem comunicação anterior ou posterior, provavelmente transferido para Salvador ou outra cidade, mas isso “não era da conta de ninguém”.

Todavia, como a história do ‘capelão’ sempre foi marcada pelas interrogações e invencionices populares, coisa comum em qualquer lugar, muito tempo depois, com a cidade refeita na sua naturalidade, surgiu a versão final, o The End, mas de forma discreta e de poucas bocas. Ele teria sido transferido, sim, mas vítima de uma ‘armação’. Conforme surgiu no ‘fala baixinho’, o capelão teria sido convidado por alguns amigos a mostrar determinada dança de sua terra e, atendendo, ele praticava alguns passos da dança, sendo flagrado por autoridades. Isso, de acordo com essa versão, teria sido o seu precipício. Sem saber, ele teria andado ou dançado na prancha!

Esse caso jamais teve confirmação, como tantos outros. Também jamais foi desfeito, até porque deixou de ser interessante com o passar dos anos e o retorno da cidade Princesa à sua vida normal. Fato é que, durante algum tempo, ‘a jipa e o capelão’ ou ‘o capelão e a jipa’ atormentaram a vida de muitos. Isso ocorreu na década de 1960, e lá se vão mais de seis décadas. Muitos que viveram esses dias já não estão entre nós fisicamente. Mas como sempre há tempo para tudo, há também tempo para lendas ou quase isso!

Por Zadir Marques Porto