Quinta, 30 de Julho de 2026
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'Não houve demora', diz Leite sobre evacuações em enchentes no Rio Grande do Sul

Eduardo Leite, negou que tenha demorado a pedir a evacuação de pessoas que viviam em áreas de risco sujeitas às inundações que afetaram mais de 92% dos municípios gaúchos.

Por: Redação Acontece no RS Fonte: BBC Brasil
21/05/2024 às 17h26
'Não houve demora', diz Leite sobre evacuações em enchentes no Rio Grande do Sul
JOÃO DA MATA/BBC NEWS BRASIL

Em meio ao maior desastre climático da história do Rio Grande do Sul, o governador do Estado, Eduardo Leite, negou, em entrevista à BBC News Brasil, que tenha demorado a pedir a evacuação de pessoas que viviam em áreas de risco sujeitas às inundações que afetaram mais de 92% dos municípios gaúchos.

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"Não houve demora", disse o governador.

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No comando do governo gaúcho desde 2019 — com uma breve interrupção em 2022 —, Leite enfrenta a terceira crise climática causada por chuvas intensas nos últimos dois anos.

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Até agora, já foram contabilizadas 155 mortes, quase 100 pessoas desaparecidas e um prejuízo material estimado em dezenas de bilhões de reais nas chuvas que começaram no final de abril.

Leite recebeu a reportagem da BBC News Brasil no gabinete improvisado montado em uma área segura da capital, Porto Alegre, porque o centro administrativo do governo, localizado no bairro Praia de Belas, foi atingido pelas inundações.

Do lado de dentro do gabinete temporário era possível ouvir o barulho de serras, martelos e carrinhos-de-mão puxados pelos operários que tentam adaptar as novas instalações.

Na entrevista concedida à BBC News Brasil, Leite reiterou que não houve lentidão na ordem para a evacuação de pessoas que viviam em regiões propícias às enchentes mesmo diante dos alertas meteorológicos indicando que havia a possibilidade, no dia 30 de abril, de elevação brusca no nível dos rios do Estado.

Em suas redes sociais, Leite só começou a pedir a evacuação de moradores do Vale do Taquari, uma das regiões mais afetadas, no dia 1º de Maio.

Apesar de ter criado um comitê científico para ajudar o Estado no processo de reconstrução, ele deu a entender que a Ciência não terá a palavra final nesse esforço.

"Não tenho dúvida de que nós teremos conflitos a serem arbitrados", disse.

Leite ainda defendeu sua política ambiental, criticada por acadêmicos e organizações não-governamentais por conta das mais de 400 alterações na legislação estadual sobre o assunto.

O governador também disse confiar na "boa intenção" do governo federal em relação aos valores anunciados para a reconstrução do Estado, estimada, inicialmente, em aproximadamente R$ 50 bilhões.

O governo Lula anunciou uma serie de medidas de socorro ao RS, incluindo suspensão do pagamento da dívida do Estado por três anos e auxílio direto às familias. Análise da BBC News Brasil mostrou que a comunicação oficial tem superestimado os bilhões enviados, considerando como investimentos federais linhas de crédito subsidiadas pela gestão.

BBC News Brasil - Como essa tragédia mudou sua rotina? Quantas horas, por exemplo, o senhor tem dormido desde o início dessa tragédia?

Eduardo Leite - No dia 29 de abril, nos foi reportado pela sala de situação que nós tínhamos uma previsão de chuvas intensas nos dias seguintes, com possibilidade de resposta hidrológica, ou seja, elevação do nível dos rios em áreas críticas do Estado e nós emitimos os alertas [...] ali, decidimos fazer um aviso público disso que prenunciávamos que traria muitos problemas para o Estado.

No dia seguinte, dia 30, a gente percebe um agravamento dessa situação. Eu reporto, então, às instâncias federais, aos ministérios, às Forças Armadas, pedindo apoio para fazer salvamentos que, nós já projetávamos, seriam em grande escala [...]

Os dias que se seguiram foram especialmente duros e tensos porque envolviam essa subida do nível dos rios, a necessidade de resgates nas diversas localidades e isso não tem hora para fazer. Então, ali as noites de sono foram especialmente curtas. Nem sei dizer quantas horas. Eu diria duas ou três horas [por noite] interrompidas por telefonemas.

BBC News Brasil - No dia 29 de abril, o senhor usou as suas redes sociais para alertar sobre a chegada das chuvas. No dia 30, o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) enviou um alerta de que havia probabilidade alta de chuvas intensas no Estado. No dia 30, o senhor fez uma live, mas não cita o termo evacuação. Apenas no dia 1º de Maio, quando já havia pelo menos 10 mortes, o senhor pede a evacuação na região do Vale do Taquari. Por que o senhor demorou do dia 29 de abril ao dia 1º de maio para solicitar a evacuação?

Leite - Não houve demora. A gente fez os alertas e dissemos justamente: "Vai ter elevação de nível dos rios"; "Saiam das áreas de risco". [...] Não me recordo agora os termos que foram utilizados nos alertas que fizemos.

Mas nós nos encarregamos de disseminar essas informações aqui para a Defesa Civil dos municípios, que fazem todo um trabalho também para retirada das pessoas das áreas de risco [...] Tudo que me foi reportado pela nossa equipe da sala de situação, eu me encarreguei de levar conhecimento público imediatamente, nos termos que me passaram [...]

Depois do jogo jogado, é fácil dizer: "Ah...subiu tanto... podia ter feito isso, podia ter feito aquilo". Naquela condição que nós tínhamos, com aquelas informações, as providências foram sendo adotadas de acordo com o que se observava.

BBC News Brasil – Em setembro de 2023, vocês tinham vivido aqui no Rio Grande do Sul uma situação que não é da mesma dimensão, mas igualmente trágica [nota da redação: naquele mês, chuvas atingiram o Estado e levaram à morte de 54 pessoas]. De alguma forma o senhor se sente responsável ou arrependido por não ter dado o alerta de evacuação antes?

Leite - Nós demos os alertas. Nós falamos desde o dia 29. Está lá registrado, "Saiam dos locais de risco"; "Teremos chuvas fortes"; "É importante todos estarem em alerta." [...] A gente vem trabalhando nisso, inclusive nós contratamos novos radares meteorológicos que estão chegando para o Estado poder ter melhor leitura da situação climática [...] Naquele momento, nós demos os alertas no nível da informação que nos permitia dar.

BBC News Brasil - Não seria o caso de, já no dia 29, solicitar a evacuação de pessoas que tivessem regiões extremamente afetadas, como a de Taquari, que já havia sido afetada em setembro de 2023?

Leite - Mas isso foi encaminhado junto com as estruturas de defesa civil das comunidades. Então nós alertamos. [...] As regiões foram alertadas e os municípios começaram a fazer retiradas de famílias dessas localidades. E conforme nós fomos observando um agravamento, foi-se intensificando essas ações.

Para mim, é claro que o Estado precisa reforçar as suas estruturas. Nós estamos trabalhando na lógica de buscar reforçar as estruturas para ter a maior precisão possível dessa previsão meteorológica e da resposta hidrológica que vai ter em cada um dos rios [...]

Não temos ainda precisão nesse sistema que me permita dizer: "Neste rio, nessa localidade, vai subir até tal cota, (vamos ter) tal resposta hidrodinâmica". É isso que nós estamos perseguindo para ter o melhor dos sistemas.

BBC News Brasil – O senhor disse que a previsão não indicaria que iria subir com rapidez, mas o alerta feito pelo Cemaden no dia 30 [de abril] citava especificamente que haveria uma elevação brusca nos rios de várias regiões, inclusive cita nominalmente o rio Taquari. Já há mais de 150 mortos. Na sua avaliação, o governo falhou ao não dar os alertas na dimensão em que era necessário para que as pessoas deixassem as áreas?

Leite - Os alertas foram dados. Nós emitimos esses alertas, tanto é que em muitas localidades onde houve muito mais mortes no ano passado e não se teve essas mortes novamente. Tudo isso porque foram emitidos os alertas.

Os prefeitos, com suas estruturas de Defesa Civil, removeram muitas pessoas locais de área de risco, evitando muitas mortes.

BBC News Brasil – O que o senhor acha que fez com que essa tragédia chegasse a esse número tão significativo de mortes?

Leite - Ela [tragédia] é muito maior do que qualquer coisa que a gente já tenha visto no passado. As pessoas lidam com a realidade que elas conhecem. Nunca aconteceu, para esta geração ou mesmo para a geração que nos antecedeu, uma situação como essa.

O volume de chuvas foi de excepcionais 700 milímetros em algumas localidades em cinco dias [...] É absurdamente desproporcional em relação a qualquer realidade que já se tenha experienciado no passado. Por mais que a gente emita os alertas, as pessoas convivem com uma noção da realidade a partir do que as pessoas têm de experiência